Aulas gratuitas. Escolha sua matéria:

O que é o Batuque? A religião afro-gaúcha que chegou à Sapucaí

O que é o Batuque? A religião afro-gaúcha que chegou à Sapucaí

Entenda o que é o Batuque, sua origem, história e importância cultural, e veja por que esse tema pode cair no Enem.

No Carnaval 2026, a Portela (uma das escolas de samba mais tradicionais do Rio de Janeiro e a maior campeã do carnaval carioca) desfilou na Marquês de Sapucaí com o enredo “O Mistério do Príncipe do Bará — A Oração do Negrinho e a Ressurreição de sua Coroa sob o Céu Aberto do Rio Grande”. O tema colocou os holofotes sobre uma religião pouco conhecida fora do sul do Brasil: o Batuque, a principal expressão de fé afro-brasileira do Rio Grande do Sul.

Mas o que é exatamente o Batuque? Por que ele é importante para a história do Brasil? E o que tudo isso tem a ver com o Enem? Vamos entender.

O Brasil tem várias religiões de matriz africana

Quando falamos em religiões afro-brasileiras, muita gente pensa imediatamente no Candomblé, da Bahia, ou na Umbanda, mais associada ao Rio de Janeiro. Mas o Brasil é um país continental, e a experiência da diáspora africana produziu diferentes tradições religiosas em diferentes regiões. O Batuque (também chamado de Nação) ocupa, no Sul do país, o mesmo lugar que o Candomblé ocupa na Bahia, o Tambor de Mina no Maranhão, a Jurema Sagrada no Nordeste e o Xangô em Pernambuco.

Todas essas religiões compartilham uma raiz comum: a tradição iorubá e banta trazida pelos povos africanos escravizados. Mas cada uma desenvolveu características próprias ao longo dos séculos, em diálogo com o contexto histórico, cultural e geográfico de cada região.

O que é o Batuque?

O Batuque é uma religião de culto aos orixás, que são divindades ligadas à natureza, às forças cósmicas e às experiências humanas. Cada orixá tem seus próprios símbolos, cores, alimentos sagrados e domínios: Ogum é o orixá dos caminhos e do ferro; Iemanjá, das águas; Oxum, do amor e dos rios; e Bará (equivalente ao Exu do Candomblé) é o mensageiro entre os humanos e o sagrado, o guardião das encruzilhadas e dos inícios.

A prática do Batuque acontece nos terreiros, espaços sagrados onde se realizam os rituais chamados de xirê, uma sequência de cantos, danças e invocações dedicadas aos orixás, acompanhadas pelo toque dos tambores. É justamente esse elemento (o toque rítmico) que dá nome à religião: batuque vem de “batucada”, referência à percussão que conduz as cerimônias.

O Batuque está presente principalmente no Rio Grande do Sul, mas também em Santa Catarina, Uruguai e Argentina, onde comunidades afro-diaspóricas se estabeleceram ao longo dos séculos XVIII e XIX.

A presença negra no Sul

Um dos pontos mais relevantes do enredo da Portela (e que merece atenção especial para o Enem) é o questionamento do imaginário que associa o Sul do Brasil exclusivamente à imigração europeia. O carnavalesco André Rodrigues declarou que a proposta era “debater a descentralização da historicidade negra do Brasil, focando na formação do Rio Grande do Sul”.

De fato, o Rio Grande do Sul recebeu um número expressivo de africanos escravizados, sobretudo nos séculos XVIII e XIX, para trabalhar nas charqueadas (produção de carne seca), nas lavouras e nas cidades. Porto Alegre teve uma população negra significativa, e foi nesse contexto que o Batuque se consolidou como religião, muitas vezes praticado de forma discreta, nos bairros periféricos, longe dos olhos das autoridades.

Os números confirmam essa herança: o Censo 2022 revelou que o Rio Grande do Sul é o estado com maior proporção de praticantes de religiões afro-brasileiras do país: 3,2% da população gaúcha, contra 1% da média nacional. Ou seja, na prática, o estado mais associado à imigração europeia é também o mais afro-religioso do Brasil.

O apagamento dessa história é um fenômeno real: a narrativa dominante sobre o Sul do Brasil privilegiou a contribuição dos imigrantes alemães e italianos, tornando a presença afro-gaúcha praticamente invisível no imaginário nacional. O enredo da Portela foi recebido com críticas por parte do público, exatamente por questionar esse estereótipo, o que, para muitos ativistas e intelectuais negros gaúchos, só reforça a necessidade de o tema ser debatido. A escritora e podcaster Luana Carvalho, gaúcha radicada no Rio de Janeiro e uma das vozes que respondeu publicamente às críticas, destacou que deslegitimar a existência e a importância da população negra gaúcha equivale a reforçar um silenciamento histórico. Ela própria foi, indiretamente, uma das inspirações para o enredo: uma postagem sua recomendando o documentário Cavalo de Santo (sobre religiões de matriz africana no Sul) foi usada pela equipe de carnavalescos durante a pesquisa para o desfile.

Vale lembrar ainda que o próprio Dia da Consciência Negra, celebrado em 20 de novembro, tem raízes no Rio Grande do Sul: a data foi proposta por um grupo de estudiosos e ativistas gaúchos como alternativa à comemoração da Abolição da Escravatura (13 de maio), em memória da morte de Zumbi dos Palmares, líder do maior quilombo do Brasil colonial, assassinado em 1695.

Quem foi o Príncipe do Bará?

Osuanlele Okizi Erupê, Príncipe do Benin, conhecido no Brasil como Príncipe Custódio, radicado em Porto Alegre em 1901. (Foto: Reprodução)

O personagem central do enredo da Portela é Custódio Joaquim de Almeida, figura histórica que teria nascido na região do antigo Reino do Benin, na África Ocidental, no século XIX. Segundo a tradição, ele era um nobre chamado Osuanlele Okizi Erupê, daí o título de “Príncipe”. Chegou ao Brasil ainda no século XIX e se estabeleceu em Porto Alegre, onde morreu por volta dos anos 1930.

Custódio era babalorixá, ou seja, um sacerdote de alto grau no Batuque, e seu papel foi fundamental para a consolidação e legitimação da religião no Rio Grande do Sul. Segundo a antropóloga Maria Helena Nunes da Silva, ele “serviu para legitimar de forma transparente uma realidade que existia dentro da cidade e que era mascarada por conta do grande fluxo de migração branca”. Sua história, no entanto, ainda é objeto de debate entre historiadores e antropólogos, o que torna a figura ainda mais intrigante e o “mistério” do título do enredo ainda mais significativo.

O legado de Custódio está presente até hoje na cidade. Em 2020, a Câmara de Vereadores de Porto Alegre aprovou o tombamento do Bará do Mercado Público como patrimônio histórico-cultural da cidade. Na crença do Batuque, esse espaço no coração do Mercado Público abriga o orixá Bará (entidade que abre caminhos e representa a fartura), e é frequentado por devotos de diferentes tradições religiosas.

O que o Batuque tem a ver com o Enem?

O tema é compatível com pelo menos três grandes eixos temáticos do Enem:

1. História e formação do Brasil: a escravidão, a diáspora africana e a resistência cultural dos povos negros são temas centrais do currículo de história. O Batuque é uma expressão direta dessa resistência: manter vivas as tradições religiosas africanas foi uma forma de preservar identidade, memória e dignidade em um contexto de violência extrema.

2. Diversidade cultural e religiosa: o Brasil é um dos países mais plurais do mundo em termos de religiosidade. Compreender as religiões de matriz africana é fundamental tanto para a redação quanto para questões de ciências humanas.

3. Racismo estrutural e apagamento histórico: o enredo da Portela denuncia um fenômeno estudado pelas ciências sociais: a invisibilização das populações negras na construção das identidades regionais. Esse tema é recorrente no Enem, que frequentemente traz textos sobre patrimônio cultural, memória coletiva e desigualdade racial.

Para fixar: principais conceitos

  • Batuque (ou Nação): religião afro-brasileira de culto aos orixás, predominante no Rio Grande do Sul e no extremo sul do Brasil.
  • Orixá: divindade cultuada no Batuque e em outras religiões de matriz africana, associada a forças da natureza e dimensões da experiência humana.
  • Bará: orixá mensageiro e guardião das encruzilhadas, equivalente ao Exu do Candomblé. No Batuque gaúcho, é o primeiro a ser saudado nos rituais.
  • Terreiro: espaço sagrado onde se realizam os rituais do Batuque.
  • Xirê: sequência de cantos e danças dedicadas aos orixás, conduzida pelo toque dos tambores.
  • Babalorixá: sacerdote de alto grau, responsável por conduzir os rituais e orientar os fiéis.
  • Diáspora africana: dispersão forçada dos povos africanos pelo mundo em decorrência do tráfico negreiro.

Quer saber mais?

Entre no canal de WhatsApp do Curso Enem Gratuito! Lá, você recebe dicas exclusivas, resumos práticos, links para aulas e muito mais: tudo gratuito e direto no seu celular. É a chance de ficar por dentro de tudo o que rola no curso e não perder nenhuma novidade.

Clique aqui para participar!

Luana Santos

Jornalista formada pela UFSC e redatora da Rede Enem
Encontrou algum erro? Avise-nos para que possamos corrigir.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *


Sisugapixel