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Carnaval: como a cultura negra transformou a maior festa do Brasil

Carnaval: como a cultura negra transformou a maior festa do Brasil

Entenda como a cultura negra moldou o Carnaval brasileiro, unindo festa, resistência, arte e política, e descubra como esse tema cai no Enem.

Samba, fantasia, bloco de rua… quando fevereiro chega, o Brasil inteiro para pra curtir o Carnaval. Mas tem uma história por trás de tudo isso que muita gente não conhece direito. Uma história de resistência, de luta, de um povo que transformou dor em arte.

A verdade é que o Carnaval brasileiro moderno foi praticamente construído pela comunidade negra. Entre o final do século XIX e início do XX, enquanto a sociedade brasileira tentava embranquecer o país através de políticas de imigração europeia e apagar a presença africana, a população negra criava nos morros cariocas aquilo que viria a ser o maior patrimônio cultural brasileiro: o samba e as escolas de samba.

Entender essa transformação é essencial pra quem vai fazer o Enem. Essa história atravessa história do Brasil (período pós-abolição, República Velha, Era Vargas), sociologia (movimentos sociais, formação da identidade nacional), geografia (ocupação urbana, regionalização cultural) e artes (manifestações culturais afro-brasileiras).

Bora mergulhar nessa história?

De onde veio essa festa toda?

A história do Carnaval remonta à Antiguidade. As Saturnais romanas, realizadas entre 17 e 23 de dezembro, celebravam Saturno com a inversão temporária da ordem social: senhores serviam escravizados, as restrições morais eram suspensas. Na Grécia Antiga, os cultos dionisíacos e as festas em homenagem a Baco (deus do vinho) tinham caráter semelhante de liberdade e excesso.

Imagem 1: Bacanal de los andrios (1523 a 1526). Pintura de Ticiano. A pintura retrata uma festa na ilha de Andros que, segundo a mitologia, teria sido tão favorecida por Baco, que possuía um rio por onde fluía vinho. (Créditos da imagem: Wikimedia Commons).

Com a cristianização da Europa, a Igreja Católica adaptou essas celebrações pagãs. O próprio nome “Carnaval” vem de “carne vale” (adeus à carne), marcando o período de festas antes da Quaresma, ou seja, 40 dias de jejum e penitência antes da Páscoa. Durante a Idade Média e o Renascimento, o Carnaval europeu ganhou características próprias em cada região: os bailes de máscaras venezianos, o entrudo português, os desfiles de carros alegóricos franceses.

Mas foi na travessia atlântica que a festa se transformou radicalmente. O Carnaval chegou ao Brasil colonial junto com os portugueses no século XVII, inicialmente como Entrudo, uma brincadeira que consistia em jogar água, farinha, ovos e outros materiais nas pessoas. Entre 1808 e 1850, com a vinda da corte portuguesa e depois com a crescente urbanização, as elites começaram a promover bailes inspirados no modelo europeu.

Paralelamente, nas senzalas e depois nos bairros pobres, a população negra observava e reinterpretava essas festas através de sua própria lente cultural.

Quando a cultura africana virou samba

Entre 1550 e 1850, cerca de 4 milhões de africanos foram trazidos forçadamente para o Brasil, principalmente das regiões de Angola, Congo, Moçambique e da Costa da Mina (atuais Nigéria, Benin e Togo). Esses povos (iorubás, jejes, bantos, entre outros) trouxeram sistemas musicais complexos baseados em polirritmia, instrumentos de percussão e danças rituais ligadas a suas cosmologias.

A capoeira, o jongo, o lundu, o batuque, todas essas manifestações culturais africanas foram proibidas ou reprimidas durante o período colonial e imperial. Mas resistiram. Nos terreiros de candomblé, nos quilombos, nas festas de largo, essa cultura pulsava e se transformava.

No Rio de Janeiro do século XIX, especialmente após 1850 (quando o tráfico negreiro foi proibido e a população africana urbana cresceu), começaram a surgir os “ranchos” e “cordões”: grupos que saíam às ruas no Carnaval com seus instrumentos de percussão. O Entrudo, antes brincadeira de portugueses ricos, foi sendo apropriado pelas camadas populares, especialmente negras.

Em 1917, “Pelo Telefone” de Donga e Mauro de Almeida foi registrado como o primeiro samba gravado. A música nasceu nas rodas de samba da casa de Tia Ciata, baiana que migrou para o Rio e cuja casa na Praça Onze se tornou ponto de encontro de sambistas. Ali se reuniam Pixinguinha, João da Baiana, Sinhô, nomes fundamentais para o desenvolvimento do gênero.

O samba como conhecemos nasceu dessa fusão: batuques africanos, melodias europeias, vivência urbana dos morros cariocas. E ele se tornou trilha sonora do Carnaval brasileiro.

Depois da abolição: a festa como território de luta

A Lei Áurea de 13 de maio de 1888 libertou juridicamente cerca de 700 mil pessoas escravizadas, mas não ofereceu nenhuma reparação ou política de integração. Pelo contrário: a República recém-proclamada (1889) implementou políticas de branqueamento, incentivando a imigração europeia e marginalizando a população negra. O Código Penal de 1890 criminalizou a vadiagem e a capoeira, ferramentas usadas para perseguir e prender negros.

Nesse contexto hostil, o Carnaval se consolidou como espaço de resistência e afirmação cultural. Em 1928, foi fundada a Deixa Falar, considerada a primeira escola de samba, no bairro do Estácio. Ismael Silva, Nilton Bastos e outros sambistas criaram uma agremiação que transformaria o Carnaval carioca. Logo surgiram Mangueira (1928), Portela (1923, como bloco Vai Como Pode, transformando-se em escola em 1935), Império Serrano (1947).

Essas escolas nasceram em bairros periféricos e morros: Estácio, Mangueira (morro da Mangueira), Madureira, Oswaldo Cruz. Eram compostas majoritariamente por negros trabalhadores – estivadores, operários, empregadas domésticas, quituteiras. A organização em “escola” não era casual: havia ali um projeto pedagógico informal de preservação e transmissão da cultura afro-brasileira.

Os primeiros desfiles eram humildes, realizados na Praça Onze, conhecida como “Pequena África” do Rio. Em 1935, o jornal O Globo organizou o primeiro desfile oficial, estabelecendo critérios de julgamento. Getúlio Vargas, percebendo o potencial político do samba, passou a apoiar as escolas como forma de cooptar as massas urbanas, transformando manifestação de resistência em cultura nacional oficial.

As festas de “J’ouvert”, ocorrem no Caribe e estão intimamente ligadas à resistência do povo, especialmente aos sujeitos escravizados. Enquanto as altas classes usavam máscaras de materiais trazidos da Europa, as classes populares improvisavam as brincadeiras de carnaval com materiais caseiros, como óleo e lama, tradições que persistem ainda hoje. (Créditos da imagem: Afar.com)

No Caribe, rolou um processo parecido. Em Trinidad e Tobago, por exemplo, o Carnaval virou ferramenta de resistência contra o colonialismo britânico. As comunidades de ex-escravizados criaram expressões artísticas como o Calypso e o J’ouvert, cheias de conteúdo político e afirmação identitária.

Blocos afro: muito mais que música

Na década de 1970, Salvador vivia um contexto de efervescência dos movimentos negros no Brasil e no mundo. O Black Power americano, a descolonização africana, as lutas contra o apartheid na África do Sul: tudo isso influenciava a juventude negra brasileira.

Em novembro de 1974, no bairro do Curuzu (Liberdade), o mais negro de Salvador, nasceu o Ilê Aiyê. Fundado por Antônio Carlos dos Santos (Vovô), Apolônio de Jesus e outros moradores, o bloco tinha (e tem) uma regra polêmica: só negros podiam desfilar. Foi uma resposta direta à exclusão que a população negra sofria nos clubes carnavalescos de elite de Salvador.

O impacto foi imenso. Em 1975, o Ilê desfilou pela primeira vez com o tema “Que Bloco é Esse? Eu quero saber!”, uma provocação direta à sociedade baiana. A imprensa atacou, chamando o bloco de racista. Mas o movimento cresceu.

Em 1979 surgiu o Olodum, também na Liberdade, fundado por João Jorge Rodrigues. O Olodum foi além: criou o ritmo samba-reggae, fusão do samba com reggae jamaicano, que se tornou trilha sonora do Carnaval de Salvador nos anos 1980. Em 1982, nasceu o Muzenza, e logo depois Ara Ketu, Malê Debalê, Bankoma, entre outros.

Esses blocos não eram apenas agremiações carnavalescas. Mantinham (e mantêm) projetos educacionais, cursos de percussão, alfabetização, formação política. O Olodum, por exemplo, criou a Escola Criativa Olodum em 1983, oferecendo educação para crianças e jovens da comunidade. O Ilê Aiyê fundou a Escola Mãe Hilda em 1988, focada em educação afrocentrada.

A estética afro também se consolidou: turbantes, tranças, roupas inspiradas em vestimentas africanas, cores que remetiam às bandeiras dos países africanos recém-independentes. A música passou a abordar temas como consciência racial, história africana, religiões de matriz africana.

Quando o samba-enredo vira denúncia social

Os sambas-enredo sempre tiveram dimensão política, mas alguns marcaram época ao abordar frontalmente questões raciais e sociais.

Fotografia de carro alegórico com figura de Marielle Franco. Desfile da escola de samba Tom Maior, em 2020. (Créditos da imagem: Portal G1)

Vários desfiles já homenagearam figuras fundamentais da luta contra o racismo e a opressão, como Zumbi dos Palmares (líder do maior quilombo do Brasil, símbolo da resistência negra), Luís Gama (advogado abolicionista que libertou mais de 500 pessoas escravizadas) e Marielle Franco (vereadora assassinada em 2018, que lutava pelos direitos humanos e contra a violência policial nas favelas).

Esses enredos emocionam a galera na Sapucaí, mas fazem muito mais que isso: eles educam, informam e mantêm viva a memória de lutas que não podem ser esquecidas.

O Carnaval também virou palco importante pra outros movimentos identitários. Pautas feministas, LGBTQIA+, questões ambientais… tudo isso aparece nos desfiles, nas marchinhas, nas performances. A festa tem esse poder de suspender temporariamente as regras sociais mais rígidas e dar voz a quem geralmente é silenciado.

Um Brasil de ritmos diferentes

Embora o samba seja o ritmo mais famoso do Carnaval brasileiro, a festa comporta uma diversidade musical impressionante! Cada região do país desenvolveu seu jeito próprio de celebrar, refletindo a riqueza cultural do Brasil.

O frevo pernambucano, reconhecido como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade pela UNESCO em 2012, nasceu no Recife no final do século XIX da fusão de marchas, dobrados e maxixes. O nome vem de “ferver”, em referência ao movimento frenético dos passistas. Os passos acrobáticos do frevo têm origem na capoeira, que precisava ser disfarçada durante o Carnaval para não sofrer repressão policial.

O maracatu, também de Pernambuco, divide-se em duas vertentes: maracatu nação (ou baque virado), ligado à coroação de reis e rainhas do Congo nas irmandades negras coloniais, e maracatu rural (ou baque solto), de origem mais recente. O maracatu nação mais antigo ainda em atividade é o Leão Coroado, fundado em 1863.

Na Bahia, além do samba-reggae criado pelo Olodum nos anos 1980, há o ijexá (ritmo afro-brasileiro ligado ao candomblé que embala blocos afro). O trio elétrico, invenção baiana de Dodô e Osmar em 1950, democratizou o Carnaval de rua ao amplificar a música. Mas foi nos anos 1970-80, com a incorporação dos blocos afro aos trios, que o Carnaval baiano ganhou a configuração atual.

O Rio de Janeiro criou o Sambódromo em 1984 (projeto de Oscar Niemeyer), profissionalizando e espetacularizando os desfiles. São Paulo seguiu modelo semelhante com o Anhembi. Mas os blocos de rua ressurgiram com força nos anos 2000: em 2020, antes da pandemia, o Rio tinha mais de 500 blocos registrados, movimentando cerca de 7 milhões de foliões.

E os blocos de rua?

Os blocos de rua são muito populares em boa parte do país. Eles são uma forma democrática de lazer, ocupando os espaços públicos com essa festa popular. (Créditos da imagem: Bloco da Bicharada Florianópolis).

Enquanto os desfiles das grandes escolas acontecem em espaços delimitados (tipo o Sambódromo), os blocos de rua ocupam as cidades de um jeito totalmente democrático.

Essa ocupação popular do espaço público tem um significado político importante: afirma que a cidade é de todos, que o direito ao lazer não é privilégio de rico. Durante o Carnaval de rua, você vê gente de todas as classes sociais, raças e idades compartilhando o mesmo espaço em clima de celebração.

Claro que essas transformações são temporárias: depois do Carnaval, a vida volta ao “normal” com todas as desigualdades. Mas a festa mostra possibilidades diferentes de convivência social e questiona estruturas rígidas de poder.

Por que isso cai no Enem?

Entender a contribuição negra pro Carnaval brasileiro te ajuda a entender um processo histórico fundamental pra identidade do nosso país!

O Enem adora cobrar questões que envolvem:

  • Manifestações culturais brasileiras: e o Carnaval é uma das maiores!
  • Questões étnico-raciais: a construção da identidade afro-brasileira
  • Movimentos sociais: resistência, luta por direitos, afirmação identitária
  • Interpretação de imagens e textos: fotos de desfiles, letras de samba-enredo, análise de obras artísticas

Saiba mais: Exercícios do Enem sobre o tema

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Luana Santos

Jornalista formada pela UFSC e redatora da Rede Enem
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