Cecília Meireles: uma das principais autoras brasileiras

Cecília Meireles foi uma das grandes representantes da poesia simbolista e moderna brasileira. Conheça as suas principais obras e o estilo dessa autora.

Cecília Benevides de Carvalho Meireles nasceu em 7 de novembro de 1901, no Rio de Janeiro. Foi professora primária e universitária e colaborou de diversas formas na literatura e na imprensa nacional.

A sua vasta obra possui o refinamento musical e cadenciado dos poetas simbolistas, exibindo também o tom melancólico e saudosista, que remete à lírica portuguesa. Esse traço, somado a algum engajamento nacionalista e às inovações de linguagem dos modernistas, coloca a sua obra num lugar à parte na literatura brasileira.

Contudo, apesar do lirismo marcado pela tristeza e o desencanto, sua poesia manifesta também uma resignação consciente diante das angústias da vida, que são expressões significativas do lirismo moderno.

Obras de Cecília Meireles

Em 1919, publicou seu primeiro livro de poesias, Espectros, de tendência, sobretudo, parnasiana:

Joana d’Arc

Firme na sela do ginete arfante,
Da coorte na vanguarda, ei-la às hostis
Trincheiras que galopa, delirante,
Fronte serena e coração feliz.

Sob os anéis metálicos do guante,
Os dedos adivinham-se viris,
Que sustêm o estandarte palpitante,
Onde esplende a dourada flor-de-lis.

Rica de sonhos, crença e mocidade,
A donzela de Orléans, no seu tresvário,
De mística, na indômita carreira

Sorri. Nenhum tremor a alma lhe invade!
E, entanto, o olhar audaz e visionário
Já tem clarões sinistros de fogueira!…

(Fonte: https://bit.ly/2Qs9G61)

Cecília Meireles - poetisa
Fonte: https://bit.ly/2NI1boG

Publica depois diversos livros como “Nunca Mais…” (1923), “Poemas dos Poemas” (1923) e “Baladas para El-Rei” (1925) e “Viagem” (1939) e “Vaga Música” (1942).

Na época de “Viagem”, considera-se que a sua poesia alcançou plena maturidade, mostrando mais características de um simbolismo-tardio.

Tal como os simbolistas, portanto, abordou temas como a precariedade da vida, do amor, da morte e da fugacidade do tempo e a brevidade da vida:

Epigrama nº 2

És precária e veloz, Felicidade.
Custas a vir, e, quando vens, não te demoras.
Fôste tu que ensinaste aos homens que havia tempo,
e, para te medir, se inventaram as horas.

Felicidade, és coisa estranha e dolorosa.
Fizeste para sempre a vida ficar triste:
porque um dia se vê que as horas todas passam,
e um tempo, despovoado e profundo, persiste.

(Cecília Meireles. Viagem. http://www.ebooksbrasil.org/eLibris/viagem.html)

Com uma lírica intimista, mística, e rigorosamente formal, que soube inspecionar diversos estilos de poesia, livre e metrificada, Cecília Meireles possui uma obra rica e particular e está entre os grandes autores de poesia da literatura nacional. Nos anos 40 publica os livros Mar absoluto (1945) e Retrato Natural (1949).

O poema “Sugestão”, que compõe Mar Absoluto, conforme o título adianta, contém fortes traços simbolistas:

Sugestão

Sede assim — qualquer coisa
serena, isenta, fiel.

Flor que se cumpre,
sem pergunta.

Onda que se esforça,
por exercício desinteressado.

Lua que envolve igualmente
os noivos abraçados
e os soldados já frios.

Também como este ar da noite:
sussurrante de silêncios,
cheio de nascimentos e pétalas.

Igual à pedra detida,
sustentando seu demorado destino.
E à nuvem, leve e bela,
vivendo de nunca chegar a ser.

À cigarra, queimando-se em música,
ao camelo que mastiga sua longa solidão,
ao pássaro que procura o fim do mundo,
ao boi que vai com inocência para a morte.

Sede assim qualquer coisa
serena, isenta, fiel.

Não como o resto dos homens.

(Cecília Meireles, in. Mar Absoluto. Flor de Poemas. 3ª Edição. Nova Fronteira. 1972, p.108)

Cecília Meireles - poesia
Fonte: https://bit.ly/2MwdmjZ

Com o Romanceiro da Inconfidência (1953) a autora compõe um dos marcos da literatura social brasileira, no qual recria poeticamente a saga de Tiradentes e dos demais inconfidentes nas Minas Gerais do século XVIII.

Cecília investiu esse poema de forte temática social, evocando a luta pela liberdade no Brasil do século XVIII e incorporando elementos dramáticos, épicos e líricos. Tematicamente, pode-se localizar a ambientação da narrativa na descoberta do ouro, o início de uma nova conjuntura social com a chegada dos mineradores e toda a estrutura formada para recebê-los.

A ênfase recai na cobiça do ouro, que torna as pessoas mesquinhas e inescrupulosas:

Romance VII ou do negro das Catas

Já se ouve cantar o negro,
mas inda vem longe o dia.
Será pela estrela d’alva,
com seus raios de alegria?
Será por algum diamante
a arder, na aurora tão fria?

Já se ouve cantar o negro,
pela agreste imensidão.
Seus donos estão dormindo:
quem sabe o que sonharão!
Mas os feitores espiam,
de olhos pregados no chão.

Já se ouve cantar o negro.
Que saudade, pela serra!
Os corpos, naquelas águas,
– as almas, por longe terra.
Em cada vida de escravo,
que surda, perdida guerra!

Já se ouve cantar o negro.
Por onde se encontrarão
essas estrelas sem jaça
que livram da escravidão,
pedras que, melhor que os homens,
trazem luz no coração?

Já se ouve cantar o negro.
Chora neblina, a alvorada.
Pedra miúda não vale:
liberdade é pedra grada…
(A terra toda mexida,
a água toda revirada…

Deus do céu, como é possível
penar tanto e não ter nada!)

(Cecília Meireles. Romanceiro da Inconfidência. Fonte: https://bit.ly/2IAkD5c)

O gênero romanceiro (não confundir com o gênero romance, em prosa) é uma coleção de poesias ou canções de caráter popular. De tradição ibérica, este gênero surgiu na Idade Média e é, em geral, uma narrativa, versificada, com um tema central, normalmente trata de fatos heróicos ligados a um determinado povo.

A estrutura do texto é composta por 85 romances, além de outros poemas, como os que retratam os cenários. Há também os espaços (que são as descrições dos cenários onde se desenrolaram os fatos) e as falas (comentários feitos pela narradora a respeito dos fatos narrados).

Além disso, em sua composição é utilizada principalmente a medida velha, ou seja, a redondilha menor (verso de cinco sílabas poéticas – pentassílabo) e, predominantemente, a redondilha maio (verso de sete sílabas – heptassílabo). Cecília, contudo, por ser autora moderna, não se prende totalmente a esse modelo.

Importante também ressaltar que o Romanceiro da Inconfidência é fruto de longa pesquisa histórica. Há nele, portanto, um retrato da sociedade de Minas Gerais do século XVIII, principalmente dos personagens envolvidos na Inconfidência Mineira, abortada pela traição de Joaquim Silvério dos Reis, o que culminou na execução de Tiradentes, que é a figura histórica mais abordada na obra. Outro que ganha destaque é o poeta e líder inconfidente Tomás Antônio Gonzaga, autor de “Marília de Dirceu”.

Seguindo com suas publicações, Cecília continuaria a lançar poemas como “Metal Rosicler” (1960) e “Solombra” (1963), e também livros infantis como “Ou isto ou aquilo” (1964). Cecília Meireles faleceu no Rio de Janeiro, no dia 9 de novembro de 1964.

Saiba mais sobre Cecília Meireles com o vídeo do nosso canal:

Exercícios:

1. (ENEM – 2012)

Ai, palavras, ai, palavras
que estranha potência a vossa!
Todo o sentido da vida
principia a vossa porta:
o mel do amor cristaliza
seu perfume em vossa rosa;
sois o sonho e sois a audácia,
calúnia, fúria, derrota…
A liberdade das almas,
ai! Com letras se elabora…
E dos venenos humanos
sois a mais fina retorta:
frágil, frágil, como o vidro
e mais que o aço poderosa!
Reis, impérios, povos, tempos,
pelo vosso impulso rodam…

MEIRELES, C. Obra poética. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1985 (fragmento).

O fragmento destacado foi transcrito do Romanceiro da Inconfidência, de Cecília Meireles. Centralizada no episódio histórico da Inconfidência Mineira, a obra, no entanto, elabora uma reflexão mais ampla sobre a seguinte relação entre o homem e a linguagem:

a) A força e a resistência humanas superam os danos provocados pelo poder corrosivo das palavras.

b) As relações humanas, em suas múltiplas esferas, têm seu equilíbrio vinculado ao significado das palavras.

c) O significado dos nomes não expressa de forma justa e completa a grandeza da luta do homem pela vida.

d) Renovando o significado das palavras, o tempo permite às gerações perpetuar seus valores e suas crenças.

e) Como produto da criatividade humana, a linguagem tem seu alcance limitado pelas intenções e gestos.

2. (UFSCAR)

Reinvenção
A vida só é possível
reinventada.
Anda o sol pelas campinas
e passeia a mão dourada
pelas águas, pelas folhas …
Ah! tudo bolhas
que vêm de fundas piscinas
de ilusionismo … – mais nada.

Mas a vida, a vida , a vida
a vida só é possível
reinventada. […]

Cecília Meireles

Podemos dizer que, nesse trecho de um poema de Cecília Meireles, encontramos traços de seu estilo

a) sempre marcado pelo momento histórico.

b) ligado ao vanguardismo da geração de 22.

c) inspirado em temas genuinamente brasileiros.

d) vinculado à estética simbolista.

e) de caráter épico, com inspiração camoniana.

3. (UFU) Leia o poema abaixo:

Retrato

Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio tão amargo.
Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas,
eu não tinha este coração
que nem se mostra.
Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa e fácil:
– Em que espelho ficou perdida
a minha face?”

(Cecília Meireles)

Assinale a alternativa INCORRETA de acordo com o poema:

a) A expressão “mãos sem força”, que aparece no primeiro verso da segunda estrofe, indica um lado fragilizado e impotente do “eu” poético diante de sua postura existencial.

b) As palavras mais sugerem do que escrevem, resultando, daí, a força das impressões sensoriais. Imagens visuais e auditivas, em outros poemas, sucedem-se a todo momento.

c) O tema revela uma busca da percepção de si mesmo. Antes de um simples retrato, o que se mostra é um autorretrato, por meio do qual o “eu” poético olha-se no presente, comparando-se com aquilo que foi no passado.

d) Não há no poema o registro de estados de ânimo vagos e quase incorpóreos, nem a noção de perda amorosa, abandono e solidão.

Gabarito:

1. b
2. d
3. d