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Como o sucesso do Cinema BR na gringa pode te ajudar no Enem

Como o sucesso do Cinema BR na gringa pode te ajudar no Enem

O cinema brasileiro acaba de escrever mais um capítulo memorável em sua história internacional. Na noite de ontem, domingo (11/01), “O Agente Secreto” conquistou duas estatuetas no Globo de Ouro 2026: Melhor Filme em Língua Não Inglesa e Melhor Ator em Filme de Drama para Wagner Moura. Essa vitória dupla representa um marco sem precedentes para o país na premiação.

A vitória consolida uma trajetória triunfal que começou em maio de 2025, quando o filme dirigido por Kleber Mendonça Filho brilhou no Festival de Cannes com quatro prêmios importantes: Melhor Direção, Melhor Ator para Wagner Moura, e dois prêmios da crítica (FIPRESCI e Art et Essai). Agora, com o Globo de Ouro, considerado um dos principais termômetros para o Oscar, “O Agente Secreto” se posiciona como forte candidato à maior premiação do cinema mundial.

Mas o que isso tem a ver com o Enem? Tudo.

A prova valoriza repertórios socioculturais atualizados e legítimos, principalmente na redação e nas questões de Ciências Humanas. Filmes como “O Agente Secreto” podem ser uma verdadeira carta na manga na hora de argumentar com profundidade e mostrar domínio de temas como cultura, política, história e sociedade.

A competência 2 da redação do Enem, por exemplo, avalia justamente se o estudante sabe usar referências culturais para construir argumentos. E quando um filme brasileiro é premiado em Cannes e vence o Globo de Ouro, sendo elogiado pela crítica mundial, ele se torna um repertório legitimado, ou seja, perfeito para usar na redação.

Sobre o que é “O Agente Secreto”?

Ambientado no Brasil de 1977, durante o governo do general Ernesto Geisel, “O Agente Secreto” acompanha a história de Marcelo (Wagner Moura), um homem de 40 anos que era professor universitário especializado em tecnologia. Viúvo e fugindo de um passado violento, ele deixa São Paulo e chega ao Recife durante a semana de Carnaval, vivendo sob identidade falsa e usando o nome “Armando” para escapar da perseguição política.

Marcelo tenta reconstruir sua vida na capital pernambucana, buscando paz e esperando se reaproximar do filho que teve que deixar para trás. No entanto, logo descobre que a cidade não é o refúgio seguro que imaginava. Ele passa a ser vigiado por vizinhos, monitorado pelos órgãos de repressão do regime militar e envolvido em uma complexa rede de espionagem, delação e controle social que caracterizava o período ditatorial.

O enredo revela como a vida de Marcelo foi violentamente destroçada pela ganância e vingança de um burocrata do governo. Enquanto tenta sobreviver sob um regime autoritário, o protagonista se vê forçado a navegar entre a cumplicidade com o Estado repressor e seus próprios dilemas éticos. A narrativa expõe os mecanismos de vigilância estatal, a cultura do medo, as perseguições políticas, os desaparecimentos forçados e a censura que marcaram aquele período sombrio da história brasileira.

Através da história pessoal de Marcelo, o filme revela o impacto devastador da repressão nas vidas privadas, nas relações humanas e na estrutura social do país. Kleber Mendonça Filho recria com precisão a atmosfera sufocante da ditadura militar, mostrando como indivíduos comuns eram apanhados pelas engrenagens de um sistema opressivo.

Ou seja: o filme fala concretamente de história brasileira, autoritarismo, vigilância estatal, perseguição política, cidadania, direitos humanos e ética, temas que caem direto nas provas do Enem, especialmente em Ciências Humanas e na redação.

O recorde brasileiro no Globo de Ouro

A edição de 2026 do Globo de Ouro marcou um feito inédito: pela primeira vez, um filme nacional somou três indicações, competindo também como Melhor Filme de Drama (categoria vencida por “Hamnet”). Wagner Moura fez história ao se tornar o primeiro brasileiro a vencer o Globo de Ouro de Melhor Ator em Filme de Drama, superando concorrentes como Dwayne Johnson, Oscar Isaac e Michael B. Jordan.

Em seu discurso de agradecimento, Wagner Moura celebrou em português: “Viva a cultura brasileira”, destacando a parceria com Kleber Mendonça Filho, a quem definiu como “um gênio”. Já o diretor, ao receber o prêmio de Melhor Filme em Língua Não Inglesa, fez questão de cumprimentar o público brasileiro e afirmou: “Pessoas da América Latina também fazem filmes”.

Essa conquista resgata uma tradição do cinema nacional na premiação: “Central do Brasil” havia vencido a mesma categoria em 1999, e no ano passado, Fernanda Torres conquistou o prêmio de Melhor Atriz em Filme de Drama por “Ainda Estou Aqui”. É a primeira vez que o Brasil vence duas categorias em uma mesma edição do Globo de Ouro, consolidando 2026 como um ano histórico para o audiovisual brasileiro.

Da trajetória internacional ao reconhecimento global

A jornada de “O Agente Secreto” ilustra perfeitamente o que chamamos de soft power cultural: a capacidade de um país influenciar o mundo não pela força, mas pelo prestígio da sua cultura, valores e ideias.

Em Cannes (maio de 2025):

  • Melhor Direção para Kleber Mendonça Filho
  • Melhor Ator para Wagner Moura
  • Prêmio FIPRESCI (críticos de cinema)
  • Prêmio Art et Essai (associação francesa de cinema)
  • 15 minutos de aplausos de pé

No Globo de Ouro (janeiro de 2026):

  • Melhor Filme em Língua Não Inglesa
  • Melhor Ator em Filme de Drama (Wagner Moura)
  • Primeira vez que o Brasil vence duas categorias na mesma edição

Cinema brasileiro como expressão da nossa identidade

Desde o Cinema Novo dos anos 1960, com nomes como Glauber Rocha, Nelson Pereira dos Santos e Cacá Diegues, o audiovisual brasileiro consolidou uma tradição de engajamento social. A proposta era clara: “uma câmera na mão e uma ideia na cabeça”, ou seja, produzir filmes de baixo orçamento, mas com forte conteúdo político e crítico.

Essa visão ressurge em momentos diferentes da história e é visível também em títulos mais recentes, como Cidade de Deus (2002), Tropa de Elite (2007) e Que Horas Ela Volta? (2015). Embora não sejam de “baixo orçamento” no sentido mais estrito do Cinema Novo, eles se destacam por conteúdo social e político, relevância crítica e qualidade artística.

Mesmo diante de cortes orçamentários, censura e desvalorização institucional, o cinema nacional persiste na produção de obras de grande relevância, abordando temas cruciais da realidade brasileira. Ele se reestrutura e adapta para tratar de assuntos como:

  • Memória histórica e democracia:
    • “Cabra Marcado para Morrer” (1984), de Eduardo Coutinho: Um documentário seminal que revisita a história de João Pedro Teixeira, líder camponês assassinado na ditadura militar, e o impacto da repressão, explorando a memória histórica e a luta pela democracia.
    • “Eles Não Usam Black-Tie” (1981), de Leon Hirszman: Um drama que retrata a greve de operários em São Paulo durante a ditadura, abordando as relações de classe, a organização política e os dilemas da resistência em um período de repressão.
    • “Pra Frente Brasil” (1982), de Roberto Farias: Um thriller político que se passa durante a Copa do Mundo de 1970, expondo os métodos de tortura da ditadura e a violência do Estado em contraste com a euforia futebolística, discutindo memória histórica e censura.

  • Desigualdade social, relações de classe e violência urbana (sob diferentes perspectivas):
    • “O Beijo no Asfalto” (1981), de Bruno Barreto: Baseado na peça de Nelson Rodrigues, o filme expõe a hipocrisia social e a violência moral de uma sociedade que lincha um homem por um ato de compaixão, revelando as engrenagens da fofoca e do julgamento público em um contexto de relações sociais tensas.
    • “Tudo Bem” (1978), de Arnaldo Jabor: Uma comédia de costumes que se passa em um prédio carioca, revelando as pequenas e grandes violências cotidianas, as desigualdades e os conflitos de classe em um microcosmo da sociedade brasileira.
    • “Copacabana Mon Amour” (1970), de Rogério Sganzerla: Um filme experimental que, de forma anárquica, retrata uma Copacabana marginal e decadente, expondo a violência implícita na vida de personagens à margem da sociedade e uma crítica subversiva à cultura de consumo, refletindo sobre desigualdade e a falência de certos valores urbanos.

O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, está inserido nessa linha de continuidade. Ao ambientar a narrativa no Brasil da ditadura militar, o filme retoma o debate sobre a repressão política e os mecanismos de controle do Estado. Mas mais do que relembrar o passado, o longa nos convida a pensar no presente: como lidamos hoje com a memória desse período? Quais paralelos podem ser traçados com a realidade atual? E como a arte pode contribuir para a construção de um futuro mais democrático e justo?

Por que O Agente Secreto é um repertório estratégico para o Enem

O filme retrata o Brasil de 1977, sob a ditadura militar, e trata de temas como autoritarismo, delação, repressão e censura. Isso o conecta diretamente a diversos eixos temáticos do Enem, especialmente nas áreas de Ciências Humanas e na redação:

  • Memória histórica e justiça de transição;
  • Cidadania e direitos humanos;
  • Liberdade de expressão e controle da informação;
  • Construção da identidade nacional por meio da arte;
  • Soft power e cultura como instrumento de influência global.

Esse conjunto de temas sugere que o filme tem o potencial de ir muito além de uma narrativa de época. Ele promete se conectar diretamente com debates contemporâneos sobre democracia, participação política, identidade cultural e projeção internacional. Por isso, pode ser uma ótima referência pra você enriquecer a sua redação com um repertório que é legítimo, super em dia e que te ajuda a conectar ideias de várias áreas!

Luana Santos

Jornalista formada pela UFSC e redatora da Rede Enem
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