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Como usar Bridgerton na redação do Enem?

Como usar Bridgerton na redação do Enem?

Veja como usar Bridgerton para discutir racismo, gênero, desigualdade, saúde mental e mais, criando argumentos fortes para a redação do Enem.

Hoje, 26 de fevereiro de 2026, a Netflix lançou a segunda parte da 4ª temporada de Bridgerton e as redes sociais já estão em polvorosa. A temporada centra o foco em Benedict Bridgerton e Sophie Baek, uma criada que se fantasia como a misteriosa “Dama de Prata” em um baile de máscaras, numa narrativa com forte inspiração em Cinderela. Enquanto muita gente vai maratonar os quatro episódios finais hoje mesmo, nós queremos te propor um desafio diferente: e se, além de se divertir, você transformasse Bridgerton em repertório para a sua redação do Enem?

1. Racismo estrutural e representatividade

Um dos elementos mais comentados de Bridgerton é a escolha narrativa de retratar personagens negros em posições de poder na aristocracia inglesa do século XIX, algo que na vida real não existia daquela forma. A rainha Charlotte, por exemplo, é negra na série, e a diversidade racial da nobreza é tratada como natural.

Essa ficção especulativa provoca uma reflexão poderosa: por que precisamos de uma série de fantasia para imaginar negros em posições de prestígio?

Contextualizando com dados:

  • Segundo o IBGE (Censo 2022), pretos e pardos representam 56% da população brasileira, mas ocupam apenas 28% dos cargos de gerência e direção nas empresas.
  • No Brasil, a população negra representa apenas 20,7% dos estudantes de universidades federais (Andifes, 2018), mesmo após décadas de políticas de cotas.
  • Um estudo do Ipea mostrou que a renda média de trabalhadores brancos é 73,9% maior do que a de trabalhadores negros.
  • O racismo estrutural foi definido pelo jurista Silvio Almeida como “uma forma sistemática de discriminação que tem a raça como fundamento e opera de modo a privilegiar um grupo racial em detrimento de outro”, conceito que o Enem já cobrou indiretamente em temas como “desigualdade racial” e “cotas”.

Temas que se conectam: desigualdade racial, políticas de cotas, representatividade na mídia, racismo estrutural.

2. O papel da mulher na sociedade

Na 2ª temporada, Kate e sua irmã Edwina são apresentadas à sociedade e há uma pressão para que encontrem um marido dentre as opções de Londres. (Foto: Reprodução)

Em Bridgerton, as jovens da alta sociedade são treinadas desde a infância para uma única finalidade: encontrar um bom marido durante a “temporada” social. Elas não herdam propriedades, não podem trabalhar e seu valor é medido pela reputação e pela capacidade de atrair um pretendente rico.

Essa dinâmica é menos distante do presente do que parece.

Contextualizando com dados:

  • Segundo o IBGE, o Brasil ainda tem cerca de 1,1 milhão de crianças e adolescentes em situação de casamento infantil ou união precoce, prática que priva meninas de acesso à educação e autonomia, exatamente como ocorria na era Regência.
  • A ONU estima que no mundo 650 milhões de mulheres foram casadas antes dos 18 anos.
  • No Brasil, mulheres ainda ganham em média 77,7% do salário dos homens (IBGE, 2023) para a mesma função, evidenciando que a dependência econômica feminina não é só história do século XIX.
  • O Fórum Econômico Mundial estima que, no ritmo atual, a igualdade de gênero no mercado de trabalho levará mais de 130 anos para ser alcançada globalmente.
  • A personagem de Daphne Bridgerton e especialmente de Penelope Featherington expõem como a ausência de alternativas molda escolhas que parecem “livres”, o que os estudos de gênero chamam de autonomia condicionada.

Temas que se conectam: feminismo, casamento infantil, desigualdade de gênero, mercado de trabalho feminino, autonomia da mulher.

3. O poder da fofoca, da desinformação e das redes sociais

A personagem de Lady Whistledown (colunista anônima que circula fofocas sobre a nobreza) é um dos elementos centrais da série. Ela tem o poder de destruir reputações, manipular mercados matrimoniais e influenciar comportamentos sociais inteiros. A série mostra com clareza como a informação (e a desinformação) sem responsabilidade causa danos reais.

Quando transposta para os dias atuais, Lady Whistledown se parece muito com perfis anônimos em redes sociais, canais de fake news e grupos de WhatsApp.

Contextualizando com dados:

  • O Brasil é um dos países mais afetados pela desinformação no mundo. Uma pesquisa do Reuters Institute (2023) mostrou que 54% dos brasileiros afirmam ter dificuldade em identificar notícias falsas.
  • Segundo o mesmo estudo, o WhatsApp é o principal canal de disseminação de desinformação no Brasil, usado por 79% da população como fonte de notícias.
  • Um relatório da Agência Senado apontou que durante as eleições de 2022, mais de 230 mil peças de desinformação foram identificadas nas principais plataformas digitais no Brasil.
  • A diferença é que Lady Whistledown era responsabilizada ao final, o que a internet anônima ainda não consegue replicar de forma eficaz.
  • O Marco Civil da Internet (Lei 12.965/2014) e a Lei das Fake News (ainda em debate no Brasil) são instrumentos que tentam responder a esse problema.

Temas que se conectam: fake news, liberdade de expressão vs. responsabilidade, redes sociais, privacidade e anonimato, democracia digital.

4. Saúde mental e pressão social por performance

A série dedica espaço considerável à pressão psicológica que os personagens sofrem para atender às expectativas da família e da sociedade. Anthony Bridgerton carrega o peso de ser o “cabeça da família” desde jovem; Eloise rejeita o sistema mas sofre pelo isolamento que isso causa; Penelope esconde sua identidade por anos por medo da rejeição.

Essas dinâmicas têm nome na psicologia contemporânea: ansiedade de desempenho, síndrome do impostor e adoecimento emocional por pressão social.

Contextualizando com dados:

  • Segundo a OMS, o Brasil é o país com a maior taxa de ansiedade do mundo, com cerca de 9,3% da população afetada (aproximadamente 19 milhões de pessoas).
  • Uma pesquisa do Instituto Cactus (2022) revelou que 7 em cada 10 jovens brasileiros entre 18 e 24 anos relatam sintomas de ansiedade.
  • O Enem de 2017 abordou diretamente a questão com o tema “Desafios para a formação educacional de surdos no Brasil”, mas o tema saúde mental já apareceu de forma indireta em coletâneas sobre pressão no trabalho, bullying e exclusão social.
  • A pressão sobre jovens para escolher carreiras lucrativas ecoa a pressão das personagens de Bridgerton para casar “bem”, não feliz.

Temas que se conectam: saúde mental, ansiedade entre jovens, pressão familiar e social, adoecimento no ambiente escolar e corporativo.

5. Classe social, mobilidade e desigualdade econômica

Bridgerton é uma série sobre hierarquias. A divisão entre quem nasceu nobre e quem tentou ascender socialmente é constante. Os Featherington, por exemplo, vivem a angústia de quem está “no limite” da aceitação social: ricos o suficiente para frequentar os bailes, mas nunca respeitados como os Bridgerton. Isso representa, com precisão, o que sociólogos chamam de distinção de classe e mobilidade social limitada.

Contextualizando com dados:

  • O Brasil é um dos países mais desiguais do mundo: segundo o Relatório do PNUD (2023), os 10% mais ricos concentram cerca de 59% da renda nacional.
  • O índice de Gini do Brasil ficou em 0,518 em 2022 (IBGE), sendo 1 a desigualdade máxima, um dos mais altos entre países com IDH elevado.
  • Um estudo do Banco Mundial mostrou que a mobilidade social no Brasil é extremamente baixa: uma criança nascida em família pobre leva em média 9 gerações para atingir a renda média nacional.
  • O sociólogo Pierre Bourdieu descreveu o capital cultural como a principal barreira à mobilidade social. Em Bridgerton isso está representado nos modos, na linguagem e no comportamento exigidos para “pertencer”.

Temas que se conectam: desigualdade social, mobilidade social, sistema de cotas, meritocracia, pobreza e exclusão.

6. LGBTQIA+ e identidade

Bridgerton e sua série derivada Queen Charlotte tocam na questão da orientação sexual e da identidade de gênero de forma mais explícita. O personagem Benedict, por exemplo, é retratado como alguém que questiona sua sexualidade, algo inimaginável de ser expresso abertamente na sociedade da época.

A série coloca em cena o custo humano de esconder quem se é.

Contextualizando com dados:

  • Segundo a pesquisa Diversidade Sexual e de Gênero (IBGE, 2019), cerca de 2,9 milhões de brasileiros se declaram homossexuais ou bissexuais, número provavelmente subestimado pelo estigma social.
  • O Brasil lidera o ranking mundial de assassinatos de pessoas LGBTQIA+: segundo o Grupo Gay da Bahia, foram 257 mortes em 2025.
  • Em 2019, o STF criminalizou a LGBTfobia, equiparando-a ao crime de racismo, uma decisão histórica, mas ainda com baixa aplicação prática.
  • O Enem já abordou temas relacionados à diversidade sexual em coletâneas, e a redação de 2015 sobre “persistência da violência contra a mulher” abriu caminho para discussões mais amplas sobre violência de gênero e identidade.

Temas que se conectam: direitos LGBTQIA+, violência e discriminação, identidade de gênero, diversidade e inclusão, criminalização da LGBTfobia.

7. Consentimento e relações de poder

A série Bridgerton gerou debate intenso ao retratar situações que hoje seriam classificadas como violação de consentimento, especialmente em sua primeira temporada. O roteiro abre espaço para uma discussão fundamental: o que é consentimento, quem pode exercê-lo e como as relações de poder o condicionam?

Contextualizando com dados:

  • Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública (2023), o Brasil registrou 74.930 casos de estupro em 2022 (uma média de mais de 200 casos por dia). Especialistas estimam que apenas 10% dos casos são reportados.
  • Uma pesquisa do Instituto Patrícia Galvão mostrou que 27% dos brasileiros ainda culpam as vítimas de violência sexual pela agressão sofrida.
  • O conceito de consentimento ativo e informado ainda é pouco debatido nas escolas brasileiras: apenas 24% das escolas públicas abordam educação sexual de forma sistemática, segundo levantamento da UNESCO.
  • A cultura do silêncio em torno do abuso é um dos maiores obstáculos à denúncia.

Temas que se conectam: cultura do estupro, educação sexual, consentimento, Lei Maria da Penha.

8. O valor do trabalho intelectual feminino e a autoria invisível

O jornal de Lady Whistledown gera muitos debates e conflitos em Bridgerton. (Foto: Reprodução)

Penelope Featherington é, secretamente, Lady Whistledown, a escritora mais influente de sua sociedade. Mas ela precisa ser anônima para existir. Esse enredo ecoa séculos de apagamento das mulheres da vida intelectual e artística.

Contextualizando com dados:

  • Até o século XX, mulheres precisavam usar pseudônimos masculinos para publicar obras literárias: Mary Ann Evans escrevia como George Eliot; as irmãs Brontë publicaram como Currer, Ellis e Acton Bell.
  • No Brasil, escritoras como Carolina Maria de Jesus só foram reconhecidas tardiamente, e muitas obras de autoria feminina ainda são sub-representadas nos vestibulares e no cânone literário.
  • Segundo dados da Câmara Brasileira do Livro (2022), apenas 30% dos livros publicados no Brasil são escritos por mulheres.
  • Em prêmios literários globais, como o Nobel de Literatura, das 120 edições realizadas, apenas 17 foram concedidas a mulheres.

Temas que se conectam: protagonismo feminino, representatividade cultural, mercado editorial, invisibilidade histórica das mulheres, arte e identidade.

Como usar esses temas na prática

Saber que Bridgerton toca nesses assuntos é o primeiro passo. Para transformar isso em repertório sólido para a redação, você precisa de três coisas:

1. Dados e fontes confiáveis: como os que apresentamos acima. Cite IBGE, OMS, IPEA, ONU, STF: isso demonstra embasamento.

2. Conceitos teóricos: termos como racismo estrutural, capital cultural (Bourdieu), autonomia condicionada e consentimento ativo mostram que você conhece o debate acadêmico por trás do tema.

3. Conexão com a realidade brasileira: o Enem sempre espera que você olhe para o Brasil. Não basta citar a série: conecte o que ela mostra com o que acontece aqui.

A série pode ser mencionada como exemplo cultural contemporâneo em um parágrafo de contextualização ou como ilustração de um problema histórico que persiste até hoje, mas nunca como a única fonte de seu argumento. Combine Bridgerton com dados reais, e você terá uma redação que se destaca.

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Luana Santos

Jornalista formada pela UFSC e redatora da Rede Enem
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