Documentos revelam mudanças na correção da redação do Enem 2025, com mais subjetividade e punições maiores. Entenda o que mudou e por que isso preocupa.
A divulgação das notas do Enem 2025, em 16 de janeiro, trouxe uma surpresa desagradável para milhares de candidatos: quedas inesperadas e significativas nas pontuações da redação. O que inicialmente parecia frustração pontual logo se transformou em polêmica nacional, especialmente quando documentos oficiais confirmaram que a correção seguiu orientações diferentes das adotadas em anos anteriores.
O que mudou na correção?
Segundo investigação exclusiva do G1, que teve acesso a documentos sigilosos, e-mails internos e materiais de capacitação dos corretores, três alterações principais foram implementadas na correção de 2025:
1. Competência 4 ficou mais subjetiva


A competência 4 avalia o uso de mecanismos linguísticos de coesão textual, como conectivos e palavras que ligam ideias. Nas edições anteriores, havia uma contagem matemática precisa desses elementos para definir a nota.
Em 2025, essa sistemática objetiva foi substituída por uma análise interpretativa. Os corretores passaram a classificar o emprego dos recursos coesivos como “pontual”, “regular”, “constante” ou “expressivo”, ampliando significativamente a margem de subjetividade na atribuição das notas.
2. Falta de “ação” na proposta passou a valer menos pontos

A proposta de intervenção do Enem deve conter cinco elementos obrigatórios: ação, agente, finalidade, meio e detalhamento. Tradicionalmente, a ausência de qualquer um desses componentes resultava em perda de 40 pontos.
Em 2025, uma orientação adicional incluída nos materiais de correção estabeleceu penalização mais severa: a falta específica do elemento “ação” passou a acarretar desconto de 120 pontos, mesmo que os outros quatro elementos estivessem presentes.
3. Repertório sociocultural passou a impactar duas competências
O Enem sempre exigiu que os candidatos fizessem referências culturais válidas para embasar argumentos. Citações genéricas, conhecidas como “repertórios de bolso”, não deveriam ser consideradas válidas.
Em 2025, um documento extra enviado aos corretores após os treinamentos presenciais mudou essa diretriz: passou a estabelecer que a competência 2 deveria dialogar com a competência 3. Na prática, repertórios socioculturais avaliados negativamente pela banca passaram a ser punidos em duas competências simultaneamente, não mais em apenas uma.
O Inep nega as mudanças
O presidente do Inep, Manuel Palacios, foi categórico ao negar alterações: “Não houve nenhuma mudança nos critérios de correção. São os mesmos corretores e a mesma instituição aplicadora. A equipe de capacitação é daqui do Inep e usou os mesmos critérios.”
Em nota oficial, o órgão vinculado ao Ministério da Educação afirmou que as redações são corrigidas por pelo menos dois avaliadores, com possibilidade de terceira correção em caso de divergência, garantindo tratamento isonômico a todos os participantes.
Apesar da negativa oficial, os documentos obtidos pela reportagem apontam para uma realidade diferente nos bastidores da correção.
Por que isso é um problema?
A situação ganha contornos ainda mais delicados quando consideramos uma mudança inédita implementada em 2026: pela primeira vez na história, o SiSU passou a aceitar notas das três últimas edições do Enem (2023, 2024 e 2025).
Isso significa que candidatos avaliados sob critérios possivelmente distintos estão competindo diretamente pelas mesmas vagas nas universidades públicas. Estudantes que fizeram o Enem pela primeira vez em 2025 podem estar em desvantagem ao disputar vagas com veteranos avaliados com critérios menos rigorosos nas edições anteriores.
Condições de trabalho dos corretores preocupam
A investigação também revelou aspectos preocupantes sobre as condições de trabalho dos corretores. Profissionais relataram que recebem cerca de R$ 3 por redação corrigida e chegam a avaliar até 200 textos em um único dia.
Corretores ouvidos pela reportagem mencionaram ainda instabilidades no sistema de correção e falhas de comunicação nos treinamentos, fatores que podem ter contribuído para a aplicação inconsistente dos novos critérios.
Próximos passos
Com a divulgação dos espelhos de correção em março, candidatos e especialistas poderão analisar mais detalhadamente como os textos foram avaliados e confirmar se as mudanças identificadas pela reportagem se refletem nos pareceres individuais.
Vale lembrar que o Inep tradicionalmente não aceita recursos ou revisões de redações, exceto em casos de correções zeradas indevidamente.
O que aprender com isso para o Enem 2026?
Para quem vai prestar o Enem nas próximas edições, algumas orientações são fundamentais:
- Acompanhe atentamente a cartilha do participante divulgada pelo Inep
- Fique atento a possíveis alterações comunicadas oficialmente pelo órgão
- Evite modelos prontos e repertórios genéricos
- Desenvolva genuinamente as cinco competências exigidas pela prova
- Garanta que sua proposta de intervenção tenha todos os cinco elementos, com destaque especial para a “ação”
- Utilize repertórios socioculturais legítimos e bem articulados ao tema
A transparência e comunicação clara por parte dos órgãos responsáveis pelo Enem são essenciais. Em um exame que impacta diretamente o futuro de mais de 4,8 milhões de candidatos, qualquer mudança, por menor que seja, deveria ser amplamente divulgada e justificada com antecedência.
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