A partir de 2028, o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) poderá passar por uma reformulação significativa. O Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) está discutindo, em reuniões com educadores de diferentes regiões do país, uma reforma ampla no exame para adaptá-lo à Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e ao novo ensino médio.
Tanto a redação quanto a prova objetiva poderão sofrer modificações, que incluem novas matrizes de referência, reorganização dos itens e um novo modelo de produção escrita. Neste post, apresentamos quais são elas, junto com uma análise da coordenadora pedagógica da Rede Enem, Juliana Evelyn dos Santos.
O que pode mudar na redação?
Atualmente, o exame exige a produção de apenas um texto dissertativo-argumentativo, com extensão máxima de 30 linhas. Porém, o Inep discute substituir a redação única por vários textos curtos de gêneros variados distribuídos ao longo da prova, com a finalidade de ampliar as habilidades e conhecimentos avaliados.
Diferentes tarefas escritas seriam distribuídas pelas áreas de Linguagens, Ciências Humanas, Ciências da Natureza e Matemática, com tamanhos e gêneros distintos. Entre as possibilidades apresentadas aos educadores está a criação de textos de 20, 10 e 5 linhas em diferentes áreas do conhecimento, podendo ser cartas de reclamação, artigos de opinião, manifestos, resenhas, entre outros.
A coordenadora pedagógica da Rede Enem, Juliana Evelyn dos Santos, vê essa proposta como um avanço pedagógico significativo. Ela considera que o modelo atual acabou engessando o ensino da escrita para a Redação Enem em fórmulas e “modelos prontos”.
“Diversificar os gêneros textuais ao longo das áreas do conhecimento aproxima a prova da vida real e acadêmica do estudante. Dessa forma, talvez a prova consiga avaliar melhor a competência comunicativa do estudante (sua capacidade de adaptar o tom, a linguagem e a argumentação ao interlocutor e ao objetivo de cada texto)”, pontua.
Competências das áreas do conhecimento
O Inep avalia a possibilidade de padronizar as quatro grandes áreas do conhecimento em quatro competências em cada uma.
Um dos pontos que está sendo considerado é a descrição dessas competências por meio de verbos de comando (como identificar, analisar e avaliar). A intenção é deixar mais clara qual operação mental será exigida do estudante, o que, segundo Juliana, pode ajudar a reduzir a ambiguidade da prova, que costuma trazer algumas questões cuja interpretação muitas vezes desafia até mesmo os professores.
Ela também destaca que, na prática, a medida também pode ajudar a diminuir a ansiedade em relação ao “o que a questão está pedindo” e aumentar a transparência do processo avaliativo.
Modelo testlets
O Enem é reconhecido por ser uma prova de resistência física e mental, onde o cansaço pela leitura de longos textos e enunciados frequentemente compromete o desempenho final do candidato.
Com o objetivo de reduzir o desgaste, o Inep considera ampliar a utilização dos chamados testlets, que consistem em um conjunto de questões baseadas em um mesmo texto de apoio. Assim, um único material poderá ser utilizado para responder a diferentes itens.
Juliana considera vantajosa a incorporação da metodologia. “Os testlets otimizam o tempo de prova e reduzem a carga de leitura fragmentada. O estudante se aprofunda uma única vez em um texto-base mais denso e rico, utilizando-o para resolver diferentes problemas. Isso permite avaliar o pensamento crítico e a capacidade de análise sob diferentes perspectivas sem esgotar o aluno fisicamente”, aponta.
Quem fez a edição passada do exame já teve contato com os testlets. Na prova de Linguagens, Códigos e suas Tecnologias uma única crônica foi usada como base para a resolução de cinco questões. Veja:


Conteúdo transversal
Com a reforma, áreas como Matemática e Ciências da Natureza poderão receber competências transversais relacionadas a conhecimentos e manifestações de matrizes indígenas e africanas.
A legislação vigente (LDB/Leis 10.639 e 11.645) torna obrigatório o estudo da história e da cultura afro-brasileira e indígena nas escolas de ensino fundamental e médio. Logo, é importante incluir esses conteúdos que integram o currículo escolar em diferentes áreas do conhecimento do Enem.
Na avaliação de Juliana, a mudança é fundamental para romper com a visão eurocêntrica da ciência. “A matemática e as ciências não surgiram isoladas na Europa. Civilizações africanas e povos originários das Américas desenvolveram saberes complexos sobre astronomia, botânica, engenharia, geometria e manejo ambiental. Levar essas matrizes para a prova legitima o patrimônio cultural desses povos e promove uma educação antirracista e inclusiva”, argumenta.
Se a proposta for incorporada, em Matemática, por exemplo, existe a possibilidade da prova trazer questões de geometria e padrões espaciais a partir da arquitetura afro-brasileira ou do trançado de cestarias e tecelagens indígenas. Ou então trazer contagem e proporcionalidade baseadas em sistemas numéricos não europeus ou em calendários agrícolas tradicionais.
Já em Ciências da Natureza, a prova poderia mencionar conceitos de química e biologia aplicados ao uso de plantas medicinais e saberes etnobotânicos. Ou pensar em questões de física e ecologia aplicadas a sistemas de manejo sustentável da terra e preservação da biodiversidade pelos povos originários.
Como se preparar para a reformulação do Enem?
Se as mudanças forem de fato implementadas, será fundamental que os estudantes desenvolvam estratégias de estudo para lidar com elas. Para Juliana, é importante ter, antes de tudo, uma grande bagagem de leitura crítica.
Sobre o novo modelo de redação, ela aconselha ir além do treino focado em modelos pré-prontos de redação dissertativa. “Será necessário praticar a escrita de diferentes gêneros textuais no dia a dia, aprendendo a adaptar sua comunicação para cartas, artigos de opinião, sínteses e resenhas”, observa.
Segundo ela, também é essencial desenvolver o estudo voltado para habilidades cognitivas, compreendendo exatamente a operação intelectual que cada questão solicita ao usar verbos como analisar, avaliar ou identificar.
A coordenadora pedagógica também ressalta que vale a pena cultivar uma visão genuinamente interdisciplinar, percebendo como a matemática, a ciência e os saberes culturais tradicionais se conectam com situações cotidianas e problemas reais.
É importante reforçar que o novo formato está em discussão e ainda não foi definido. A previsão do Inep é concluir a proposta de reestruturação do exame até o fim de 2026, para que, a partir de 2028, o Enem esteja adequado à BNCC e à Política Nacional do Ensino Médio. A implementação das alterações deverá ocorrer de maneira gradual até 2032.
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