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Por que Minas Gerais está enfrentando chuvas tão devastadoras?

Por que Minas Gerais está enfrentando chuvas tão devastadoras?

Entenda as causas meteorológicas, geográficas e climáticas por trás das chuvas extremas que provocaram a maior tragédia recente em Minas Gerais.

Em fevereiro de 2026, a Zona da Mata Mineira foi palco de uma das maiores tragédias climáticas da história do estado. Juiz de Fora e Ubá foram as cidades mais atingidas: em apenas 48 horas, choveu o equivalente a quase 4 vezes a média do mês inteiro. O resultado: mais de 68 mortes, milhares de desabrigados e um estado de calamidade pública. Mas por que isso aconteceu? Vamos entender juntos.

Antes de tudo: o que é “chuva intensa”?

Na meteorologia, usamos o volume de precipitação (em milímetros, mm) para medir a intensidade da chuva. Para ter uma ideia de escala:

  • Chuva fraca: até 5 mm/h
  • Chuva moderada: entre 5 e 25 mm/h
  • Chuva forte: entre 25 e 60 mm/h
  • Chuva muito forte (tempestade): acima de 60 mm/h

Em Juiz de Fora, em fevereiro de 2026, o acumulado do mês chegou a 589 mm, sendo que a média histórica do mês inteiro é de apenas 170 mm. Ou seja: choveu 247% acima do normal. Em apenas 48 horas, foram registrados 227 mm, com a maior parte concentrada em apenas 6 horas.

O que causou as chuvas?

 Ao todo, são oito frentes de trabalho do corpo de Bombeiros auxiliando as vítimas em MG. (Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil)

Vários fatores atuaram simultaneamente, como peças de um quebra-cabeça climático. Bora ver cada um deles:

Massa de ar quente e úmido + Convecção atmosférica

O Brasil está no período chuvoso de verão (dezembro a fevereiro), quando o calor intenso aquece o ar próximo à superfície. O ar quente é menos denso e sobe (processo chamado convecção). Ao subir, esse ar esfria, o vapor d’água se condensa e formam-se nuvens carregadas de chuva.

Nesse caso, uma grande massa de ar quente e úmido se concentrou sobre a Zona da Mata Mineira, criando instabilidade atmosférica intensa.

Supercélula: a tempestade dentro da tempestade

O temporal de 23 e 24 de fevereiro foi gerado por uma supercélula, um dos sistemas convectivos mais poderosos da natureza. Trata-se de uma tempestade com rotação interna, capaz de gerar nuvens do tipo cumulonimbo que podem atingir até 16 km de altitude (chegando à estratosfera!).

Supercélulas são responsáveis por granizo grande, tornados, rajadas violentas de vento e precipitação extremamente concentrada em curtos períodos de tempo.

Baixa pressão atmosférica e canalização de umidade

Além da supercélula, havia uma área de baixa pressão sobre o leste de Minas Gerais. Áreas de baixa pressão funcionam como “aspiradores” de ar: o ar dos arredores converge para o centro, sobe e forma nuvens. Nesse caso, esse sistema canalizou ainda mais umidade para a Zona da Mata, “alimentando” as tempestades.

Frente fria

Uma frente fria avançando pelo Sul do Brasil encontrou o ar quente e úmido do interior mineiro. Esse encontro de massas de ar com temperaturas diferentes é um dos principais gatilhos para chuvas intensas no Sudeste brasileiro.

Por que a Zona da Mata foi a mais afetada?

Relevo acidentado

A Zona da Mata Mineira é caracterizada por um relevo predominantemente montanhoso, com morros e encostas íngremes. Quando chove intensamente nesse tipo de terreno, a água escoa rapidamente pelas encostas, ganhando força e arrastando tudo: solo, rochas, construções. O resultado são os deslizamentos de terra e enxurradas.

Ocupação urbana de risco

Grande parte da população de Juiz de Fora e Ubá vive em encostas e margens de rios. Essa ocupação irregular ou de baixa infraestrutura aumenta drasticamente a vulnerabilidade das pessoas. Quando uma área de risco é ocupada, qualquer chuva acima da média pode ser fatal.

Solo saturado

Nas semanas anteriores ao desastre principal, a região já acumulava chuva acima da média. Isso significa que o solo estava saturado (como uma esponja que não consegue absorver mais água). Quando veio a tempestade extrema, praticamente toda a água escoou pela superfície, causando enxurradas ainda mais violentas.

O papel das mudanças climáticas

Aqui está a pergunta que cientistas do mundo inteiro estão se fazendo: as mudanças climáticas tornaram esse evento possível ou mais grave?

A resposta dos especialistas é cuidadosa, mas clara: embora não seja possível atribuir um evento isolado diretamente às mudanças climáticas, é consenso científico que o aquecimento global aumenta a frequência e a intensidade de eventos extremos.

Um dos sinais mais evidentes está no Oceano Atlântico, cuja temperatura está entre 2°C e 3°C acima do habitual. Oceanos mais quentes evaporam mais água, colocando mais vapor d’água na atmosfera — o “combustível” das tempestades. Mais umidade disponível = tempestades mais intensas e chuvas mais volumosas.

Pesquisadores do CEMADEN (Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais) apontam que as regiões Sudeste e Sul do Brasil são as mais expostas a esse tipo de evento, tanto pela densidade populacional quanto pelas fragilidades de infraestrutura.

Os números da tragédia (fevereiro de 2026)

IndicadorDado
Mortes confirmadas68+ (62 em JF, 6 em Ubá)
Desaparecidos21+
Desabrigados e desalojados+3.500
Chuva acumulada em Juiz de Fora (fev/2026)589 mm
Média histórica de fevereiro em JF170 mm
Chuva em 48h (dias 22-24)~228 mm
Situação decretadaCalamidade pública

Glossário rápido

  • Precipitação: qualquer forma de água que cai da atmosfera (chuva, granizo, neve)
  • Convecção: movimento vertical do ar devido a diferenças de temperatura
  • Supercélula: tempestade convectiva com rotação, extremamente intensa
  • Frente fria: encontro entre massa de ar frio e massa de ar quente
  • Solo saturado: solo que atingiu sua capacidade máxima de absorção de água
  • Cumulonimbo: nuvem de tempestade, pode atingir 16 km de altura
  • Baixa pressão: área onde o ar sobe e converge, favorecendo nuvens e chuva
  • Deslizamento de terra (movimento de massa): deslocamento rápido de solo e rochas encosta abaixo

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Luana Santos

Jornalista formada pela UFSC e redatora da Rede Enem
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