Gestar e parir: é treta! – Atualidades Enem

Neste dia das mães, vamos discutir um pouco sobre os nascimentos no Brasil? Entenda um pouco mais sobre o contexto dos partos com o relato da Juliana, nossa Coordenadora Pedagógica.

Tenho dois filhos. Sempre falo isso assim que me apresento para alguém. No meu contexto, a maternidade é quase uma tatuagem na minha testa. Tá na minha cara, no meu jeito de falar, nas minhas olheiras pelas noites mal dormidas, no meu carro bagunçado, na minha expressão abobalhada ao ver meus filhos. Sou uma mãe muito clichê. Poderia escrever muitas páginas sobre essa experiência doida (e doída) que é ser mãe. Do quanto isso me vira a cabeça, enlouquece meus dias e me faz sentir o mais desesperado amor. Mas, isso é papo para outro texto.

Escrevo aqui neste especial do Blog do Enem, para compartilhar contigo as duas experiências mais viscerais de toda a minha vida: as gestações e partos dos meus filhos. Pode parecer meio esquisito falar disso aqui, neste espaço tão pedagógico, mas quero te lembrar que a discussão sobre os direitos das mulheres e o domínio sobre seu próprio corpo são pautas constantes das atuais discussões sociais.

Então, quem sabe, a discussão sobre os partos pode até aparecer em uma questãozinha do Enem, ou mesmo como tema de uma redação. Mas, também quero que este texto possa conversar contigo, que é mãe e estudante, e contigo também que é mulher e que um dia quer ter essa experiência. Com você que é mulher, não quer ser mãe, mas apoia outras mulheres em sua luta por seus direitos. E com você, que talvez tenha ouvido histórias parecidas como a minha e não deu importância porque achou que isso não te pertencia. Quero que este relato contribua um pouquinho para questionar alguns fatores sociais relacionadas ao parto. Quero que meu pequeno relato te abra os olhos, e também o coração.

Como talvez você já saiba, sou bióloga (mãe, professora, escritora, coordenadora e mais uma “na fila do pão” com a mulherada que acumula funções). Para mim, a gestação e o parto sempre foram absolutamente fascinantes (biologicamente e socialmente). Eu sempre achei sensacional saber como uma vida pode se desenvolver no interior de um útero e como o nosso corpo pode orquestrar o nascimento de uma criança. Talvez por isso, sempre quis ser mãe.

Quando soube que estava grávida, tracei vários planos para a minha gestação e para o meu parto. Li vários blogs e revi conteúdos que tinha estudado na faculdade para entender direitinho como o meu bebê estava se desenvolvendo. E, de uma coisa eu tinha certeza: queria ter meu filho de parto natural, como minha mãe e minha avó, e queria amamentá-lo o quanto pudesse.

Nada muito diferente de tantas outras mulheres, não é mesmo? Mas eu me sentia orgulhosa de querer um parto natural, era legal, eu me achava diferentona. Sabe por quê? Porque todas (sim, todas) as minhas amigas ou primas que tiveram filhos tinham tido através de cesariana. Hoje me envergonho disso, mas confesso que as considerava umas medrosas acomodadas.

Mas, é claro que a vida me colocou em situações que me fizeram morder a língua e repensar meu julgamento. Comecei a fazer as consultas de pré-natal e descobri que a parada não era bem como eu imaginava. Percebi que meus desejos talvez não fossem muito relevantes na minha caminhada até o nascimento do meu filho. O primeiro “acorda, Juliana!” foi na minha segunda consulta do pré-natal. Estava lá com meu obstetra bonitão, no consultório bacana dele (fiz o pré-natal particular), e do nada ele me pergunta se eu já tinha um plano de parto.

Eu estava no terceiro mês de gestação. TERCEIRO. E o cara já estava me perguntando isso! Estranhei, mas falei pra ele da minha intenção de fazer parto natural. Ele me olhou (com aquele olhar condescendente que dirigimos para crianças fofinhas, mas teimosas) e disse que era uma coisa desnecessária. Que marcar uma cesariana era muito mais confortável e seguro para mim e para o bebê, e que a clínica dispunha de excelentes acomodações. Inclusive (que maravilha da praticidade!), ele já poderia marcar a data. Na época eu era meio “bocó”. Hoje eu imagino o discurso destruidor e poderoso que eu daria como resposta. Mas naquela situação não consegui pensar em nada para dizer. Apesar disso, no dia seguinte, já marquei consulta com outra médica.

Só nessa primeira parte da história você já deve ter sacado que tem alguma coisa errada no modo como tratam os nascimentos, né?

A partir dessa e de outras experiências, percebi que muitas mulheres não escolhem a cesariana apenas por comodidade ou frescura. Muitas vezes elas são aterrorizadas e induzidas a fazerem uma cirurgia cesariana para terem seus filhos. O Brasil tem altíssimos índices de cesarianas: 57% dos nascimentos são por cirurgia. Quando falamos de rede particular, esse número sobe para absurdos 87% (veja mais sobre estes dados nesta reportagem no site da ONU).

Você pode se perguntar: mas, por que as mulheres são induzidas e se deixam levar a fazer um parto que várias pesquisas demonstram que é menos saudável para a mãe e para o bebê?

Vários fatores. O primeiro já citei: influência médica e mercadológica. É muito mais cômodo para um obstetra dispor de uma hora de seu tempo em uma cesariana do que ficar 12 horas acompanhando sua paciente em trabalho de parto. Para um hospital particular, é muito menos dispendioso uma mãe em cirurgia por pouco tempo, do que uma mãe sendo assistida durante todo seu longo trabalho de parto. Como resultado disso, na rede particular, temos uma grande indução ao parto cesariano.

Já ouvi muitos relatos nesse sentido. Já ouvi médico dizendo que parto normal é coisa de índio. Já ouvi de enfermeiras que parto normal aumenta as chances de retardo mental. Um parente meu teve que dar um “carteiraço” de policial nas enfermeiras para que parassem de perturbar a mulher dele dizendo “boba, no tempo em que tu estás aqui sofrendo, várias já fizeram cesária e estão com seus bebezinhos no colo”. Agora, imagine você (ou sua companheira) ouvindo esse show de horrores estando grávida do seu primeiro filho. O que você escolheria? A desinformação, ou a informação incorreta passada por pessoas de má fé, disfarçados de profissionais bem intencionados (o jaleco branco convence muito, sabia?) pode convencer qualquer um.

Mas, você deve estar pensando: “ai, Ju, mas nem todo médico é assim!” É claro que não. Tive atendimentos maravilhosos também! Na verdade, quero acreditar que a maioria não é e que, azarada que sou, topei com mais estrupícios que as pessoas normais. Mas, infelizmente, tratar o parto como negócio não é o único fator a pesar nesta balança. O problema do parto no Brasil também pode ter um fundo no imaginário popular e em condutas médicas retrógradas.

Como na vez que em que estava com quase 9 meses de gestação precisei fazer um ultrassom de rotina. Um médico já bem idoso me atendeu. No exame ele viu que meu filho teria perto dos 4 kg (ele nasceu com 4.090 g). Falei que já esperava isso, já que havia sido sugerido em exames anteriores. Ele me olhou muito sério e perguntou sobre meu plano de parto. Falei que queria ter um parto normal, já que estava bem de saúde e que minha obstetra havia dito que não havia nenhum impedimento para isso. O cara riu de mim. Não uma risadinha apenas. Riu mesmo e fez cara engraçadinha para a assistente. Depois disse que se eu parisse meu filho de parto normal iria mijar nas calças aos 40 anos, uma vez que um feto grande como aquele poderia destruir minha pelve.

Sim. Eu ouvi isso. Lembro de ficar furiosa e também ter minha segurança balançada por um cara que não conhecia o histórico da minha gestação e da minha família e que tinha uma opinião bem machista e retrógrada sobre o parto. E, infelizmente, já deu pra perceber que ele não é o único. Quantas vezes você já ouviu que fulana fez cesária porque o bebê era muito grande? Que ciclana teve que fazer o cesária porque a pressão estava um pouco alta. Que beltrana teve que fazer cesária porque não teve dilatação ou a “bacia” era estreita. A verdade mesmo é que na maior parte dos casos esses não são impeditivos para um parto natural, é apenas procedimento mais comum (e prático) para o profissional da saúde.

O fato é que, quando entrei em trabalho de parto, estava com medo da dor e com medo de fazer xixi na calça com 40 anos (porque foi isso que o médico disse). Mas, consegui me concentrar e, ao longo das contrações (estava sentindo a dor da qual todos falavam e, pô, doía muito mesmo), eu só pensava: “teu corpo foi projetado pra isso, Juliana. Tu aguentas!”.  Muito bióloga, até na hora de parir meu primeiro filho. Apesar dos meus medos, achei que estava no domínio da situação, afinal eu tinha “informação”.

Mal sabia eu, que a tal “informação” que eu tinha sobre o trabalho de parto era muito “quadradinha”: eu sabia os processos fisiológicos que aconteciam e também tinha na memória um pouco das narrativas das mulheres da minha família. Essas informações pareciam suficientes para mim, aos 24 anos. Suficientes para uma mulher em sua primeira viagem como mãe. Mas não eram. Hoje eu sei que passei por processos desnecessários que autorizei obedientemente, como um cordeirinho de presépio, por achar que tudo que estavam fazendo era para o meu bem. Situações essas que no meu imaginário eram validadas pelas experiências das mulheres da minha família.

Na minha ideia de parto eu não deveria falar palavrão, nem gritar, porque era feio. Então, eu me contive. No meu imaginário, tinha que fazer tudo que os profissionais de saúde quisessem, ficar na posição que eles escolhessem. Eu fiquei. Nas minhas poucas certezas, fazer um episiotomia (corte profundo na vagina “para acelerar” e “facilitar” o parto) era imprescindível mesmo que a anestesia não tivesse pegado direito. Permiti. Fui tratada com descrédito, não respondiam minhas perguntas. Assenti e aceitei calada, afinal, era uma médica que estava no controle. E eu, quem eu era?

Hoje eu vejo, com tristeza, que sofri pequenas violências que, de tão naturalizadas nas crendices populares, não as compreendi como tais. Tenho lembranças lindas do nascimento do meu filho, mas fico triste quando penso que eu ainda tive sorte: conheço muitas mães que sofreram violências piores em seus partos, por quê? Por que essas violências são tão normatizadas e tão comumente narradas com naturalidade pelas mulheres? Talvez possamos pensar em algumas respostas.

Primeiramente, podemos pensar nas dores do parto: são lendárias, mas pouco explicadas e detalhadas para as mulheres que vão parir. Esse misticismo em volta dessa dor faz com que a gente ache que sentir dor no parto é tão normal (e é, quando falamos das contrações) que outras dores inventadas (como a episiotomia ou manobras em que sobem sobre o corpo da mulher para empurrar sua barriga) são também necessárias em todos os partos (a episiotomia só é necessária em menos de 10% dos partos, mas no Brasil a taxa é de 57%. Conheço casos em que o corte atingiu até as nádegas da mulher).

Outro fator a se pensar é a insistência em tirar o protagonismo das mães na hora do parto. Perdi as contas das vezes que já ouvi: “Ju, quem fez teu parto?” Sempre penso: “Eu mesma, ué!” Mas, sei que querem perguntar qual médico/médica que me auxiliou no parto. O problema é que essa pergunta faz com que a gente sempre pense que não temos o papel principal naquela cena, que não podemos dirigi-la segundo nossas necessidades e desejos. Perdemos a autonomia e nos entregamos a protocolos médicos. Acabamos sendo induzidas a confiar mais nos atendentes que nas nossas vontades viscerais. Assim, consentimos a violência institucionalizada.

Pensando nesse contexto, não é de se estranhar que muitas mulheres, quando podem, optem pelo parto cesariana, não é mesmo? Mas as coisas têm mudado. Movimentos de mães, doulas e profissionais da saúde têm se esforçado para aumentar o acolhimento das mulheres, diminuir o número de cesarianas eletivas e fortalecer as escolhas de cada mulher. Há muitos grupos de ajuda, muita discussão nas redes sociais. Eu vivi isso e aprendi bastante.

Meu segundo parto já foi bem diferente. Foi um parto que chamamos hoje de “humanizado”, pois ao invés de seguir protocolos médicos enrijecidos, respeita-se a vontade da mulher. Quando cheguei na maternidade fui mais bem acolhida e me perguntaram sobre meu plano de parto. Mais consciente do que ia passar e dos meus direitos, deixei claro meus limites e consegui vivenciar melhor o nascimento da minha filha. Nessa nova vibe, tive outro parto normal, na posição em que me sentia mais confortável, conversando com a médica sobre os próximos passos.

A equipe médica também ajudou: respeitou minhas vontades, pediu permissão para realizar os procedimentos. Eu desejo demais que todas as mulheres possam ter acesso a algo tão básico quanto isso: o direito de decidir sobre o nascimento dos seus filhos. O direito de serem ouvidas e respeitadas nesse momento. O direito de serem percebidas como protagonistas do parto. O direito de se sentirem poderosas e senhoras dos seus próprios corpos, como eu me senti.

Defensora que sou desse direito de escolha, gostaria de dizer que não pretendo com este texto diminuir ou julgar as mães que optaram por uma cesariana eletiva. De modo algum. Como disse, acredito que é preciso respeitar as vontades de uma mulher sobre seus corpos. Esta escolha não as torna menos mães, menos corajosas, menos empoderadas. Pelo contrário. A intenção aqui é marcar um ponto imprescindível para a saúde de uma mulher: o direito à informação clara e honesta, para que cada uma possa ter uma escolha consciente. Assim, como o direito de não ser vista apenas como uma fonte de lucro, mas sim como uma mulher e uma mãe. Porque vou te dizer, se você estiver disposta a lutar por esses direitos, gestar e parir uma criança, é treta.

Eu e meus pequenos, no dia das mães
Se você quer saber um pouquinho mais sobre o assunto, você pode ver um documentário muito bonito: O renascimento do Parto. Veja o trailler:

Dá pra “alugar” no Youtube!

Para saber mais sobre o assunto, veja as seguintes matérias:

https://brasil.elpais.com/brasil/2017/08/24/actualidad/1503582688_802126.html

http://www.minhavida.com.br/familia/materias/20279-qual-a-diferenca-entre-o-parto-normal-e-o-humanizado

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Sobre a autora:

Juliana é bióloga formada pela Universidade Federal de Santa Catarina. Atua desde 2004 como professora na rede particular de ensino da Grande Florianópolis. Escreve os textos de biologia para o Blog do Enem desde 2013 e atualmente também é coordenadora pedagógica da Rede Enem.