A intertextualidade – O diálogo entre textos. Revise Literatura Enem!

Você sabe o que é intertextualidade? Não? Então veja neste post o diálogo entre os textos 'Navio Negreiro', de Castro Alves, e 'Todo camburão tem um pouco de Navio Negreiro', do grupo O Rappa. É você aprendendo para gabaritar Literatura no Enem e nos vestibulares!

Literatura Enem: A intertextualidade está presente em muitos textos, sendo um recurso para dar mais significado ou, melhor ainda, para que possamos melhor compreender os textos intertextualizados.

O Enem simplesmente adora avaliar sua capacidade de perceber as diferentes conexões que um texto ou uma imagem pode trazer! O nome deste conteúdo é Intertextualidade. Então, você quer ter uma melhor compreensão textual, diante de citações de obras literárias, pinturas, publicidade e etc, na sua prova do Enem ou vestibular? Esse post da professora Analice é pra você!

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Negros no porão de um navio negreiro, Rugendas, 1835

 

Depois de ler os dois textos que estão abaixo você conseguirá perceber o diálogo que existe entre os dois. Ambos tratam de assuntos semelhantes. Esse é o recurso da intertextualidade! Um recurso tão importante que eu posso te afirmar que nenhum texto origina-se do nada, que um sempre traz referência de algo já criado ou produzido, ou seja, alimenta-se, de maneira clara, de outros textos.

Para você começar a entender a intertextualidade, leia, com atenção, o fragmento do poema de Castro Alves, escrito em 1868, e, logo em seguida, ouça a musica e leia a letra da canção ‘Todo Camburão tem um pouco de Navio Negreiro’, do grupo O Rappa:

O NAVIO NEGREIRO – Castro Alves

Era um sonho dantesco… O tombadilho

Que das luzernas avermelha o brilho,

Em sangue a se banhar.

Tinir de ferros… estalar do açoite…

Legiões de homens negros como a noite,

Horrendos a dançar…

 

Negras mulheres, suspendendo às tetas

Magras crianças, cujas bocas pretas

Rega o sangue das mães:

Outras, moças… mas nuas, espantadas,

No turbilhão de espectros arrastadas,

Em ânsia e mágoa vãs.

 

E ri-se a orquestra, irônica, estridente…

E da ronda fantástica a serpente

Faz doudas espirais…

Se o velho arqueja… se no chão resvala,

Ouvem-se gritos… o chicote estala.

E voam mais e mais…

 

Presa nos elos de uma só cadeia,

A multidão faminta cambaleia,

E chora e dança ali!

Um de raiva delira, outro enlouquece…

Outro, que de martírios embrutece,

Cantando, geme e ri!

 

No entanto o capitão manda a manobra

E após, fitando o céu que se desdobra

Tão puro sobre o mar,

Diz do fumo entre os densos nevoeiros:

“Vibrai rijo o chicote, marinheiros!

Fazei-os mais dançar!…”

 

E ri-se a orquestra irônica, estridente…

E da roda fantástica a serpente

Faz doudas espirais!

Qual num sonho dantesco as sombras voam…

Gritos, ais, maldições, preces ressoam!

E ri-se Satanás!…

Para dar sequência, leia e ouça letra e canção da música Todo camburão tem um pouco de navio negreiro, de Marcelo Yuka:

 Todo Camburão Tem Um Pouco de Navio Negreiro – O Rappa

Tudo começou quando a gente conversava

Naquela esquina ali

De frente àquela praça

Veio os homens

E nos pararam

Documento por favor

Então a gente apresentou

Mas eles não paravam

Qual é negão? Qual é negão?

O que que tá pegando?

Qual é negão? Qual é negão?

 

É mole de ver

Que em qualquer dura

O tempo passa mais lento pro negão

Quem segurava com força a chibata

Agora usa farda

Engatilha a macaca

Escolhe sempre o primeiro

Negro pra passar na revista

Pra passar na revista

 

Todo camburão tem um pouco de navio negreiro

Todo camburão tem um pouco de navio negreiro

 

É mole de ver

Que para o negro

Mesmo a aids possui hierarquia

Na áfrica a doença corre solta

E a imprensa mundial

Dispensa poucas linhas

Comparado, comparado

Ao que faz com qualquer

Figurinha do cinema

Comparado, comparado

Ao que faz com qualquer

Figurinha do cinema

Ou das colunas sociais

 

Todo camburão tem um pouco de navio negreiro

Todo camburão tem um pouco de navio negreiro

 

Você leu os textos? Percebeu a busca por referências que acontece para que o autor possa reafirmar, rebater e revolver suas ideias e objetivos dentro de cada?. O que quero dizer com isso é que ele, o autor, usa desse recurso para dar mais credibilidade ao que foi escrito, reforçando o que foi dito ou contrariando essa informação, diante de determinados pontos de vista. Então, você está compreendendo o que é a intertextualidade.

Dessa maneira, a intertextualidade, em sua extensão, alcança toda e qualquer produção textual, seja ela verbal ou não verbal e, também, não só em textos escritos, mas inclusive em textos falados.

Levando em conta a tela de Rugendas (1830), lá no começo do post, você acha que existe alguma intertextualidade entre os vistos nesse post? Sem dúvidas, não é mesmo? O pintor alemão, que produziu várias de suas obras no Brasil, retrata, também, a crueldade do tráfico de escravos naquele século e, nessa obra, relata o momento da travessia dos negros para a América, todos amontoados, sejam eles crianças ou mulheres.

 Aula Gratuita sobre Intertextualidade:

Para você arrasar nas interpretações de textos nas provas do Enem e do Vestibular, segue uma dica de um ótimo vídeo sobre o tema desse post, do professor Sidney Martins, no canal Lac Cursos, no Youtube: https://www.youtube.com/watch?v=qRcnUMvvb9M

 Levando em conta os textos estudados, a questão sobre a intertextualidade e a interpretação de texto, teste seus conhecimentos com os exercícios abaixo!

Exercícios 

1. Sobre o poema O navio negreiro, de Castro Alves e considerando a intertextualidade:

Pesquise a etimologia (origem da palavra) do adjetivo dantesco e dê seu significado.

 

2. (UFMT) Sobre a canção Todo camburão tem um pouco de navio negreiro, de Marcelo Yuka:

Em relação ao entendimento do texto, julgue os itens.

 

a) O texto aponta somente razões sociais para a discriminação do negro.

b) O sentido dos termos chibata e macaca corresponde, respectivamente, ao de feitor e soldado.

c) A expressão “é mole de ver”, nas duas ocorrências, é polissêmica – pode ser entendida como é fácil de ver e como é triste de ver.

d) Na expressão “em qualquer dura” (parte II), o rígido, usado como acréscimo o adjetivo lento.

 

Gabarito:

1. Dante, em Divina Comédia, descreve o Inferno, logo em sua primeira parte da obra. Assim, no poema de Castro Alves, o adjetivo dantesco, refere-se ao horroroso, assustador, espantoso.

2. B

O texto foi escrito pela professora Analice, formada em Letras pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho – Unesp. Atualmente é mestranda em Literatura na Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC, professora de português na rede particular de ensino da Grande Florianópolis e colaboradora do Blog do Enem. Facebook: http://www.facebook.com/analice.andrade