Os recentes terremotos registrados em um curto espaço de tempo na Venezuela, na Colômbia e no Peru, que causaram destruição e deixaram milhares de vítimas, colocaram os fenômenos sísmicos na América do Sul em destaque. Além de ser um tema atual, o assunto relaciona conhecimentos de Geografia e Ciências da Natureza e pode, inclusive, servir como repertório para a redação do Enem.
Terremotos em sequência: o que está acontecendo na América do Sul?
Em menos de dois meses, três países sul-americanos foram registraram terremotos de magnitude elevada.
No dia 24 de junho, dois tremores de magnitudes 7,2 e 7,5 atingiram a Venezuela, afetando principalmente o estado de La Guaira. O terremoto é considerado o mais mortal registrado no país desde 1812: deixou 6.509 mortos, segundo o balanço oficial divulgado em 24 de agosto pelo governo interino da Venezuela. Pelo menos 25 mil residências estão inabitáveis, enquanto milhares de pessoas desabrigadas.
Já em 10 de agosto a Colômbia registrou um terremoto de magnitude 7,4, o mais forte no país na última década. O epicentro foi localizado no município de San José del Palmar, no departamento colombiano de Chocó, e o tremor foi sentido em diversas regiões. Segundo dados divulgados pela Unidade Nacional para a Gestão de Riscos e Desastres (UNGRD), o desastre deixou 329 mortos. E nesta quarta-feira outro tremor de magnitude 5,5 atingiu o país.
Dez dias depois, em 20 de agosto, um tremor de magnitude 6,7, segundo o Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS), atingiu a região de Ayacucho, no sul do Peru. Em julho, o país já havia registrado um tremor de magnitude 5,6.
Você sabe por que esse fenômeno acontece com tanta frequência em algumas áreas do continente? A gente te explica.
O que causa os terremotos?
Primeiro é fundamental entender a causa dos tremores.
Terremoto é um abalo sísmico provocado pela liberação de energia no interior da terra. Mas, afinal, como isso acontece?
O professor de Geografia da Rede Enem, Lucas Azeredo, ajuda a explicar. A crosta terrestre é formada por placas tectônicas que estão em constante movimento. Elas podem se aproximar, em um movimento convergente; afastar-se, em um movimento divergente; ou deslizar lateralmente, em um movimento transformante. Nesses movimentos, a tensão pode se acumular nas rochas. Quando ocorre uma ruptura ou deslocamento, a energia é liberada em forma de ondas sísmicas, provocando o terremoto. Por isso, eles são mais comuns nos limites entre placas.
Nos limites convergentes, especialmente nas zonas de subducção, ocorrem alguns dos terremotos mais fortes. Nos transformantes, o atrito entre as placas também pode gerar grandes tremores. Já nos divergentes, eles tendem a ser mais rasos e, em geral, de menor magnitude.
O ponto no interior da Terra onde ocorre a ruptura é chamado de hipocentro ou foco. Já o ponto da superfície localizado diretamente acima dele é o epicentro.
Saiba mais sobre os agentes modeladores do relevo em Agentes Modeladores do Relevo – Resumo de Geografia Enem & Encceja
Intensidade e magnitude: qual é a diferença?
Para registrar os terremotos, os geólogos utilizam sismógrafos, aparelhos que detectam os movimentos do solo. A partir desses registros, é possível calcular diferentes medidas relacionadas ao fenômeno.
É importante não confundir magnitude com intensidade. A magnitude está relacionada à energia liberada pelo terremoto. Durante muito tempo, a Escala Richter foi usada para fazer essa medição, mas ela caiu em desuso por apresentar limitações, principalmente na análise de terremotos muito grandes. Atualmente, a Magnitude de Momento (Mw) é mais utilizada.
Já a intensidade descreve os efeitos percebidos em determinado lugar e é tradicionalmente descrita pela Escala de Mercalli, que vai de I a XII. Ela leva em conta fatores como os efeitos sobre pessoas, construções e o ambiente.
Para não confundir, pense na magnitude como “quanta energia o terremoto liberou?” e na intensidade como “o que esse terremoto causou neste lugar?”.
Terremotos são comuns na América do Sul?
Esse tipo de fenômeno é relativamente frequente em algumas áreas, principalmente no oeste do continente sul-americano, que está localizado em uma região de intensa atividade tectônica. Segundo o Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS), três dos dez maiores terremotos registrados na história ocorreram na América do Sul. Entre eles está o terremoto de Valdivia, no Chile, em 1960, de magnitude 9,5, o maior já registrado por instrumentos.
O Peru, Chile e outros países andinos fazem parte do Círculo de Fogo do Pacífico, uma extensa região de mais de 40 mil quilômetros considerada a maior zona sísmica do mundo. Em grande parte dessa área, a Placa de Nazca, de origem oceânica, mergulha por baixo da Placa Sul-Americana, continental, em um processo chamado subducção. Essa interação entre as placas provoca terremotos e vulcanismo e também contribui para a formação da Cordilheira dos Andes.
Já no norte da América do Sul, a atividade sísmica está relacionada à interação entre as Placas do Caribe e Sul-Americana, que influencia, por exemplo, a atividade sísmica na Venezuela e também na Colômbia.
É coincidência tantos terremotos acontecerem em tão pouco tempo na América do Sul?
Uma sequência de terremotos pode gerar dúvidas sobre uma possível relação entre os eventos. Mas o professor Lucas Azeredo explica: “Ter vários terremotos em pouco tempo não significa que todos estejam relacionados. É uma região naturalmente muito ativa, e só a análise sismológica permite identificar se há alguma conexão entre eles”.
E o Brasil? Também pode ter terremotos?
Sim, e acontece. No entanto, devido à localização do país, no interior da Placa Sul-Americana e distante de suas bordas mais ativas, os terremotos tendem a ser menos frequentes e menos intensos.
Porém isso não significa que o Brasil esteja livre deste fenômeno. Falhas geológicas antigas podem ser reativadas pelas tensões dentro da própria placa. O país está sujeito aos chamados sismos intraplaca e pode também sofrer tremores causados pelo reflexo das pressões geradas nas bordas. Portanto, a ideia de que “no Brasil não tem terremoto” é um mito.
O tema já apareceu no Enem 2024, que apresentou tremores registrados no Chile, no Amazonas e em São Paulo para abordar a relação entre atividade sísmica e a localização das cidades em relação às zonas de subducção.
O maior terremoto já registrado no Brasil ocorreu em 1955, na região da Serra do Tombador, em Mato Grosso, e teve magnitude 6,2 na escala Richter.
Em resumo:
Chile/Peru/Colômbia, Venezuela → próximos a uma borda de placas → maior atividade sísmica.
Brasil → interior da placa → menor atividade sísmica.
Quais são os impactos de um desastre natural?
Os efeitos de um desastre natural não são determinados apenas pela intensidade do fenômeno, mas também pelas condições sociais, econômicas e estruturais da população afetada. No caso de um terremoto, a magnitude não determina sozinha o potencial de destruição. Fatores como infraestrutura local, densidade urbana e acesso aos serviços de emergência também influenciam.
Um exemplo é o terremoto de Popayán, na Colômbia, em 1983. O tremor teve magnitude 5,5 e intensidade VIII na escala Mercalli. Apesar da magnitude moderada, provocou cerca de 250 mortes, deixou aproximadamente 1.500 pessoas feridas e destruiu ou danificou milhares de construções. A pouca profundidade do tremor e a vulnerabilidade das edificações contribuíram para a dimensão dos estragos.
Por isso, regiões com infraestrutura precária, que atravessam dificuldades socioeconômicas e pouca preparação tendem a sofrer consequências mais graves. O fenômeno tem o potencial de causar grandes perdas humanas e materiais.
Medidas de prevenção e conscientização promovidas pelo governo de países propensos a este tipo de evento são fundamentais para reduzir esses impactos. Construções mais resistentes, sistemas de alerta, monitoramento sísmico e treinamento da população ajudam a diminuir os riscos. Após um desastre, as ONGs também desempenham um papel importante na prestação de ajuda humanitária.
Para o ENEM, o tema pode servir como repertório sociocultural para discutir questões como desigualdade social, falta de infraestrutura, prevenção de desastres, atuação do Estado e vulnerabilidade das populações.
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