As Reformas Religiosas: os Protestantes e a Reação Católica – História Enem

Vamos revisar o tema reformas religiosas neste post especialmente preparado para o Enem? Esse foi o período em que a Igreja Católica perdeu poder de influência em diversas regiões da Europa.

É de conhecimento geral que a Igreja Católica monopolizou por cerca de mil anos os assuntos ligados a fé, bem como as mentalidades durante toda a idade média, tendo adquirido status de instituição supranacional durante o feudalismo.No entanto, após mudanças significativas nas esferas sociais, políticas e econômicas a partir do desenvolvimento das cruzadas e renascimentos comercial, urbano e cultural.

Desta forma, a partir das revoluções ditas burguesas, com a troca gradual da hegemonia social o clero passou a enfrentar diversas contestações ao domínio que exercia por toda a Europa Ocidental. Um personagem central na clivagem da então Igreja Católica foi o frade Martinho Lutero, que em 1517 escreveu e divulgou 95 teses de contestação às práticas da Igreja. Veja na imagem aula completa sobre Lutero e o Protestantismo.Martinho Lutero e a Reforma Protestante

Podemos dizer que as reformas religiosas significaram justamente a perda da primazia católica sobre a religião cristã, uma vez que as novas doutrinas conservaram o cristianismo como vertente, resultando na divisão dos cristãos em católicos e protestantes.

Reformas religiosas e as críticas ao clero

As principais críticas destinadas ao alto Clero Católico diziam respeito a diversas situações, a exemplo da exclusividade do clero quanto a interpretação das escrituras. Nessa época e até a invenção da imprensa a bíblia era publicada apenas em latim. Além disso, o questionamento quanto a santidade de outros “personagens” religiosos e também do próprio Cristo; a venda de indulgências, que representava uma fonte de renda para sustentar o luxo e opulência do alto clero.

Além dessas críticas, os reformistas foram também influenciados ou puderam contar com o apoio de nobres e reis interessados nas terras e demais posses da Igreja Católica. Nesse mesmo período os chamados Estados Modernos surgiam por toda a Europa, além da influência dos valores renascentistas propagados pelo continente: humanismo, antropocentrismo, individualismo, naturalismo, classicismos. Desta maneira ficava clara a decadência moral da Igreja romana que se dedicava mais a questões políticas do que religiosas naquele período.

Diante desse contexto, em alguns pontos da Europa novas doutrinas cristãs foram criadas e difundidas baseadas em novos valores, mais adequado as mentalidades e estilo de vida que uma parte dos europeus viviam na época.

De que reformas religiosas estamos falando, afinal?

Reforma Luterana

Martinho Lutero era um monge agostiniano que vivia em Wittenberg, na região da saxônia, em um Sacro Império com características político administrativas próprias. Neste território a Igreja era extremamente rica, poderosa e opressora junto a nobres e principalmente burgueses e camponeses, o que colaborou para o sucesso de Lutero ao colocar-se frente ao enorme poder do clero católico.

Nas primeiras décadas do século XVI, o Papa Leão X incentivou a venda de indulgências em todo o território Cristão afim de angariar fundos para a conclusão da Basílica de São Pedro. Lutero posicionou-se contra a prática e passou a sofrer ameaças de excomunhão, principalmente após fixar 95 teses contra a Igreja e o alto clero nas portas da catedral de Wittenberg. Tendo negado se retratar, foi finalmente excomungado pelo papa. Veja na imagem a representação de Lutero afixando as Teses. O monge foi então protegido pelo príncipe Frederico da Saxônia e passou a dedicar-se a elaboração de uma nova doutrina, baseada na Fé como fundamento primordial para a salvação. Surgiam as bases das religiões cristãs protestantes.

Nesse período Lutero traduziu a Bíblia do latim para o idioma comum, tornando possível aos letrados a livre interpretação das escrituras sagradas. Outros nobres viram em Lutero e sua doutrina a oportunidade de apoderar-se dos domínios católicos do Sacro Império, é o caso do grão mestre da Ordem dos Cavaleiros Teutônicos que converteu-se ao luteranismo e secularizou os bens da Ordem, fundada durante o período das cruzadas, além dos senhores do Saxe, Brandemburgo e Hesse.

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Martinho Lutero queima em praça pública a bula Exsurge Domine em dezembro de 1520

Fonte:http://ocontornodasombra.blogspot.com.br/2016/01/ha-495-anos-lutero-era-excomungado-pelo.html

Ainda no Sacro Império, por volta de 1524 uma rebelião de camponeses influenciados pela doutrina luterana e liderados por Thomas Munzer lutaram para por fim a servidão exterminando membros do clero e nobres, exploradores dos pobres, segundo a interpretação do evangelho. Em 1525, o levante teve fim após a união entre nobre católicos e protestantes, burgueses e membros do clero, responsável pela morte de cerca de 100 mil camponeses. O próprio Lutero apoiou a destruição do levante dos chamados Anabatistas.

As disputas no Sacro Império só teriam fim quando da assinatura da Paz de Augsburgo, quando ficou definido que cada príncipe ou duque grande Sacro Império deveria impor sua religião em seu território. O Sacro Império permaneceria dividido até a unificação da Alemanha, no século XIX.

Reforma Calvinista

João Calvino nasceu na França, onde aderiu a ideais das reformas religiosas. Naquele país uma reforma mais pacifica foi duramente reprimida por católicos mais radicais, o que forçou a radicalização do próprio Calvino que em 1536 transfere-se para a Suiça para fugir da perseguição católica na França.

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O Massacre no Dia de São Bartolomeu de François Dubois. Pintura a óleo, 94 x 154 cm; Museu Cantonal de Lausana

Fonte:https://pt.wikipedia.org/wiki/Fran%C3%A7ois_Dubois#/media/File:Francois_Dubois_001.jpg

Na Suíça, país marcado pelo grande número de burgueses, Calvino receberá a proteção para o desenvolvimento de uma doutrina religiosa alicerçada nos valores burgueses, chegando a tornar-se um ditador da lei e moral. Veja na imagem uma aula completa sobre João Calvino e O Calvinismo: Calvinismo e Anglicanismo

O Calvinismo representou uma nova forma de entendimento quanto à ascensão intra-mundana. O paraíso é reservado apenas a alguns predestinados e a garantia de salvação perpassa pela vocação para realizar determinado trabalho. Ou seja, a possibilidade de salvação eterna depende da dedicação a um trabalho/profissão.

Práticas burguesas como a cobrança de juros, condenadas pela Igreja Católica, não representam perigo aos praticantes. Por outro lado, a ostentação, opulência e luxo são proibidos, assim como jogos de azar, teatro, bebidas e afins. O calvinista deveria levar uma vida regrada dedicada ao trabalho.

Tal doutrina foi difundida em locais como Inglaterra (puritanos), França (huguenotes), Países Baixos, Escócia (Presbiterianos) e posteriormente na América, a partir da colonização dos Estados Unidos, onde os calvinistas se concentraram no norte da colônia britânica.

Reforma Anglicana

Na Inglaterra a reforma protestante foi introduzida pelo próprio monarca, Henrique VIII, insatisfeito com a recusa do Papa na dissolução de seu casamento com Catarina de Aragão. Em busca de um herdeiro homem, Henrique VIII dissolveu por si só seu casamento e contraiu novas núpcias com Ana Bolena.

Após ser excomungado, Henrique VIII conseguiu apoio junto a outros nobres ingleses, também interessados nas propriedades da igreja, e desta forma afirmou seu poder real e absolutista sobre o país. Os bens católicos foram confiscados e distribuídos entre os nobres e o Parlamento legitimou ato do rei por meio do Ato de Supremacia, firmado em 1534.

Do ponto de vista religioso, a nova religião preservava os dogmas católicos, o que criou problemas junto aos que permaneceram católicos, bem como aos fiéis protestantes. Todavia, a descendência de Henrique VIII mergulharia a Inglaterra em anos de intolerância religiosa. Henrique VI impôs o calvinismo mas morreu jovem, sua irmã, Maria I (filha de Catarina de Aragão), impôs o retorno do catolicismo e passaria para a história com a alcunha de Bood Mary, em virtude da caça aos protestantes que ordenara. Após sua morte foi substituída pela irmã, Elizabeth I, que voltou a impor o protestantismo anglicano que ajudou a fundamentar através do “Bill dos 39 artigos” e “Bill da Uniformidade”.

Reforma Católica

A Igreja Católica, obviamente, não ficou de “braços cruzados” enquanto sua influência sobre regiões inteiras da Europa diminuía. Além da repressão e violência outras medidas foram adotadas, sobremaneira durante o Concílio de Trento (1545 – 1563).

Neste concílio, o poder papal foi reafirmado pela Igreja Católica, foi instruído o Index Librorum Proibitorum, uma lista dos livros proibidos pelo clero católico, reafirmaram-se os 7 sacramentos (batismo, comunhão, matrimônio, confissão, crisma, ordem e unção dos enfermos).

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Representação do Concílio de Trento
Fonte: http://mundoeducacao.bol.uol.com.br/historiageral/contra-reforma.htm

Além das medidas estabelecidas no Concílio de Trento, o Tribunal do Santo Ofício (Santa Inquisição) foi fortalecido e incentivado a operar a caça aos ditos hereges. Além disso, uma nova ordem religiosa foi organizada por Inácio de Loyola segundo padrões militares e com o objetivo de propagar a fé católica. Veja aqui uma aula completa A Contrarreforma da Igreja Católica

Conhecida como Ordem dos Jesuítas, a Companhia de Jesus seria responsável posteriormente pela catequização de milhares de indígenas durante a conquista da América.

E aí, pessoal? Ficou alguma dúvida sobre as reformas religiosas? Vamos assistir aos vídeos  abaixo e resolver esse problema?

Dica 1: Aula sobre a Reforma Protestante:

Dica 2:

Já estudamos sobre as reformas religiosas e agora vamos resolver esses exercícios para ficar craque para a prova de história do Enem. Bons estudos!

Exercícios:

(Cesgranrio) No contexto dos diversos conflitos religiosos que eclodiram na Europa, ao longo do século XVI, identificamos a convocação pela Igreja Católica, a partir de 1545, do Concílio de Trento. Dentre suas determinações, destacamos corretamente o (a):

a) reconhecimento da autoridade política e teológica da Igreja anglicana frente ao papado, encerrando os conflitos provocados na Inglaterra devido à luta de Henrique VIII contra o Vaticano.

b) fim do clero regular como solução para conter os abusos cometidos pela Igreja, tais como a venda de indulgências e sacramentos.

c) oficialização da doutrina calvinista que admitia o lucro comercial como uma dádiva divina e não mais como um pecado usurário, como um novo dogma católico.

d) submissão da Igreja católica aos Estados imperiais laicos e a validade da livre interpretação da Bíblia.

e) reafirmação da hierarquia eclesiástica católica e a reativação do tribunal do Santo Ofício da Inquisição.

Resposta: E

(Cesgranrio) No contexto dos diversos conflitos religiosos que eclodiram na Europa, ao longo do século XVI, identificamos a convocação pela Igreja Católica, a partir de 1545, do Concílio de Trento. Dentre suas determinações, destacamos corretamente o (a):

a) reconhecimento da autoridade política e teológica da Igreja anglicana frente ao papado, encerrando os conflitos provocados na Inglaterra devido à luta de Henrique VIII contra o Vaticano.

b) fim do clero regular como solução para conter os abusos cometidos pela Igreja, tais como a venda de indulgências e sacramentos.

c) oficialização da doutrina calvinista que admitia o lucro comercial como uma dádiva divina e não mais como um pecado usurário, como um novo dogma católico.

d) submissão da Igreja católica aos Estados imperiais laicos e a validade da livre interpretação da Bíblia.

e) reafirmação da hierarquia eclesiástica católica e a reativação do tribunal do Santo Ofício da Inquisição.

Resposta: E

(Pucsp) A doutrina calvinista estabelecia para seus adeptos uma vida regrada, disciplinada, dedicada ao trabalho, afastada do ócio, dos vícios e da ostentação. Esse código de conduta levou alguns autores a considerar esses princípios do calvinismo como fatores que favoreceriam o processo de acumulação capitalista. Dentro dessa doutrina, apoiada numa interpretação particular da noção de onisciência divina, conformar-se a esse ideal de conduta não seria o caminho para a salvação, mas seus resultados visíveis – o sucesso material – dariam ao eleito a confirmação do estado de graça.

Esse código de conduta fundamentava-se no princípio doutrinário que pregava

a) a justificação pela fé, ou seja, a fé como meio de obtenção da graça e da salvação.

b) a predestinação à salvação, ou seja, a ideia de que alguns já nascem escolhidos por Deus para serem salvos, estado impossível de ser modificado, passível, apenas, de ser reconhecido pelos “sinais” presentes na vida dos “eleitos”.

c) a salvação pelas obras, ou seja, a redenção por um ato voluntário do indivíduo, que deveria cumprir os mandamentos divinos, praticar a caridade, intensificar orações e peregrinações.

d) a vocação missionária e a opção pelos pobres, ou seja, a missão de pregar o evangelho e difundir a doutrina especialmente entre aqueles que se achavam destituídos das riquezas terrenas.

e) a valorização do ascetismo, a flagelação do corpo e a negação da posse de riquezas materiais como meios de alcançar a graça divina, afastando da mente e da alma aquilo que seria considerado “tentação da carne”.

Resposta: B

Bruno História
Os textos e exemplos acima foram preparados pelo professor Bruno Anderson para o Blog do Enem. Bruno é historiador formado pela Universidade Federal de Santa Catarina. Dá aulas de história em escolas da Grande Florianópolis desde 2012. Facebook e Twitter.