Poesia Concreta: o que é, características e autores para o Enem

A poesia concreta é um tipo experimental de poesia que mistura linguagem verbal e visual. Ela surgiu no século XX com o intuito de criticar a produção poética da época.

Antes de mais nada, você precisa saber que o movimento denominado como poesia concreta faz parte da nossa história literária. Portanto, confira nesta aula o que é poesia concreta, exemplos e exercícios relacionados ao tema. Assim você conseguirá desempenhar um bom resultado nas suas provas.

O que é poesia concreta?

Criada por Décio Pignatari (1927 – 2012), Haroldo de Campos (1929 – 2003) e Augusto de Campos (1931), a poesia concreta era um ataque à produção poética da época.

Afinal, naquela época quem dominava a poesia era a geração de 1945. Essa geração era bastante criticada pelos jovens paulistas que acusavam-na de verbalismo, subjetivismo e falta de apuro. Além disso, apontavam uma incapacidade de expressar a nova realidade gerada pela revolução industrial.

Décio Pignatari e os irmãos CamposFotografia de Augusto de Campos, Décio Pignatari  e Haroldo de Campos em 1952.

A partir disso, começa a surgir esse tipo de poesia. Em 1948, Décio Pignatari e os irmãos Campos participam de uma exposição de poesias em São Paulo, que foi o pontapé inicial para a criação do Concretismo. Juntos, fundam a revista Noigandres, que serviu como o marco fundador desse movimento. A palavra “noigandres” veio de uma canção do trovador provençal Arnaut Daniel e significa “o olor que afasta o tédio”.

Noigandres

Esses três poetas se propunham a utilizar outro tipo de linguagem: verbo-visual (mistura da linguagem verbal com a não verbal). Podemos ressaltar uma forte influência do grafismo, ou seja, produção de tipos de letras, formas diferentes para se utilizar na folha, ausência de linearidade, enfim, maior liberdade para pensar a poesia.

Há, também, utilização de marcas no fazer poético desses autores, como forma de realizar críticas e ironias. Em resumo, os criadores do Concretismo e da poesia concreta propugnavam um experimentalismo poético (planificado e racionalizado).

Características da poesia concreta

  • Abolição do verso tradicional, sobretudo através da eliminação dos laços sintáticos, como, por exemplo, as preposições, conjunções, pronomes, etc. Nesse sentido, o intuito era gerar uma poesia objetiva, concreta, feita quase tão somente de substantivos e verbos.
  • Utilizar uma linguagem necessariamente sintética, dinâmica, homóloga à sociedade industrial. Por exemplo: “A importância do olho na comunicação mais rápida (…), os anúncios luminosos, as histórias em quadrinhos, a necessidade do movimento (...)”.
  • Utilização de paronomásias, neologismos, estrangeirismos; separação de prefixos e sufixos. Além da repetição de certos morfemas e a valorização da palavra solta (som, forma visual, carga semântica) que se fragmenta e recompõe na página.
  • O poema transforma-se em objeto visual, valendo-se do espaço gráfico como agente estrutural. Ou seja, o uso dos espaços brancos, de recursos tipográficos, etc. Logo, o poema deverá ser simultaneamente lido e visto.

Exemplos de poesia concreta

exemplo de poesia concreta

Observe em seguida o despojamento e o jogo verbal desta poesia concreta de Haroldo de Campos:

de sol a sol

soldado

de sal a sal

salgado

de sova a sova

sovado

de suco a suco

sugado

de sono a sono

sonado

sangrado

de sangue a sangue

Do mesmo modo, podemos observar o jogo de palavras na poesia concreta de Décio Pignatari:

poesia concreta de Décio Pignatari

E por fim, não menos importante, uma poesia concreta de Augusto de Campos (1965):

poesia concreta de Augusto de Campos

Videoaula sobre poesia concreta

Para se aprofundar no conteúdo visto até aqui, veja esta videoaula da prof. Camila no canal do Curso Enem Gratuito. Em seguida, saiba mais sobre autores do Concretismo.

Augusto de Campos

Juntamente com seu irmão, Haroldo, Augusto fez história na literatura brasileira sendo um dos principais autores do concretismo. Nascido em 1931, começou a publicar seus primeiros poemas em 1949. As obras foram publicadas na Revista Brasileira de Poesia, que era editada pelo Clube da Poesia.

Posteriormente, em 1952, abandonou o Clube por não concordar com a orientação estética de seus membros. Ao passo em que descobria novas maneiras de produzir poesia, Augusto começou a editar uma nova revista.

Ao lado de Haroldo de Campos (seu irmão) e Décio Pignatari, construiu o grupo Noigandres e deu vida ao movimento da poesia concreta.

Dessa forma, podemos considerar a poesia concreta de Augusto de Campos uma das mais importantes do movimento e da época.

Outros autores

Juntamente com os poetas citados, podemos falar de outros autores do concretismo. Por exemplo, tivemos Ferreira Gullar, Arnaldo Antunes, Paulo Leminski, entre outros que ganharam destaque.

Mas, apesar das brilhantes ideias que surgiam, algumas pessoas tinham dificuldade em decifrar e ler os autores da poesia concreta. À primeira vista era fácil considerar esse tipo de arte algo confuso, espalhado e sem sentido.

Ainda assim, a arte se espalhou e se tornou inclusive referência internacional. Nesse meio tempo, muitos outros artistas brasileiros beberam da fonte da criatividade concreta. Por exemplo, Caetano Veloso decidiu oralizar um dos poemas de Augusto dos Campos.

O resultado você pode ver abaixo:

Obras mais importantes

Do mesmo modo que tivemos poetas bastante importantes na poesia estudada, também tivemos obras que transcenderam seu tempo. Ou seja, elas continuam fazendo sucesso e sentindo nos dias atuais.

Nesse sentido, podemos citar as obras:

  • Poetamentos, de Augusto de Campos (1953).
  • Galáxias, de Haroldo de Campos (1963).
  • Teoria da Poesia Concreta, de Décio Pignatari (1965).

Poesia Concreta no Enem

Vamos ver como o Enem costuma cobrar temas envolvendo o Concretismo. Por exemplo:

(ENEM/2017)

Contranarciso

em mim
eu vejo o outro
e outro
e outro
enfim dezenas
trens passando
vagões cheios de gente
centenas

o outro
que há em mim
é você
você
e você

assim como
eu estou em você
eu estou nele
em nós
e só quando
estamos em nós
estamos em paz
mesmo que estejamos a sós

LEMINSKI, P. Toda poesia. São Paulo: Cia. das Letras, 2013.

A busca pela identidade constitui uma faceta da tradição literária, redimensionada pelo olhar contemporâneo. De acordo com o poema, essa nova dimensão revela a

a) ausência de traços identitários.

b) angústia com a solidão em público.

c) valorização da descoberta do “eu” autêntico.

d) percepção da empatia como fator de autoconhecimento.

e) impossibilidade de vivenciar experiências de pertencimento.

Gabarito: D

Veja que há bastante interpretação de texto também, mas é necessário saber as características da poesia concreta.

Exercícios sobre poesia concreta

Por fim, é necessário realizar alguns exercícios de poesia concreta para fixar o conteúdo estudado!

1 – (ENEM/2004)

O poema abaixo pertence à poesia concreta brasileira. O termo latino de seu título significa “epitalâmio”, poema ou canto em homenagem aos que se casam.

poesia concreta epitalâmio

Considerando que símbolos e sinais são utilizados geralmente para demonstrações objetivas, ao serem incorporados no poema “Epithalamium – II”,

a) adquirem novo potencial de significação.

b) eliminam a subjetividade do poema.

c) opõem-se ao tema principal do poema.

d) invertem seu sentido original.

e) tornam-se confusos e equivocados.

2 – (ENEM/2015)    

da sua memória

mil

e

mui

tos

out

ros

ros

tos

sol

tos

pou

coa

pou

coa

pag

amo

meu

ANTUNES, A. 2 ou + corpos no mesmo espaço. São Paulo: Perspectiva, 1998.

Trabalhando com recursos formais inspirados no Concretismo, o poema atinge uma expressividade que se caracteriza pela

a) interrupção da influência verbal, para testar os limites da lógica racional.

b) reestruturação formal da palavra, para provocar o estranhamento no leitor.

c) dispersão das unidades verbais, para questionar o sentido das lembranças.

d) fragmentação da palavra, para representar o estreitamento das lembranças.

e) renovação das formas tradicionais, para propor uma nova vanguarda poética.

3 – (UNICAMP SP/2018)    

O poema abaixo é de autoria do poeta Augusto de Campos, integrante do movimento concretista.

Augusto de Campos, Viva Vaia - Poesia concreta

(Augusto de Campos, Viva Vaia. Poesia: 1949-1979. São Paulo: Ateliê Editorial, 2000, p. 116-117.)

Nesse poema, nota-se uma técnica de composição que consiste

a) na disposição arbitrária de anagramas, sem produzir uma relação de sentido com o título do poema.

b) na disposição exaustiva de anagramas, sem produzir uma relação de sentido com o título do poema.

c) na disposição arbitrária de anagramas, para produzir uma relação de sentido com o título do poema.

d) na disposição exaustiva de anagramas, para produzir uma relação de sentido com o título do poema.

4 – (UNCISAL/2016)    

Rio - o ir, de Arnaldo Antunes

ANTUNES, Arnaldo. Rio: o ir. Disponível em: <http://www. arnaldoantunes.com.br/new/index.php?page=32>. Acesso em: 6 nov. 2015.

O texto acima, um poema de Arnaldo Antunes, inscreve-se numa tradição de procedimentos poéticos também recuperáveis no

 a) Naturalismo, uma vez que o poema faz uso de recurso visual que se assemelha a uma rosa, o que remete à natureza.

b) Arcadismo, uma vez que é perceptível que o poema se estrutura em torno da palavra “rio”, o que remete a uma supervalorização deste elemento natural.

c) Concretismo, uma vez que o poema investe na materialidade visual da palavra, explorando um arranjo geométrico que, com poucos recursos, provoca diversas leituras e compreensões.

d) Modernismo, uma vez que se percebe a estruturação do poema em torno da flexão de primeira pessoa do verbo “rir”, o que recupera o humor característico dos poetas modernistas.

e) Parnasianismo, uma vez que a forma do poema se assemelha à de uma pedra preciosa, o que metaforiza a aproximação que os parnasianos estabelecem entre o fazer poético e o trabalho do ourives.

GABARITO: 

  1. A
  2. D
  3. D
  4.  C