Goiânia e o Césio-137: o acidente radioativo que nunca foi esquecido
Jaqueline Padilha20 maio, 2026Atualizado em 20 maio, 2026Avaliação:
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Desde o dia 13 de setembro de 19887, as ruas do Setor Aeroporto de Goiânia nunca mais foram as mesmas. O local que antes era um bairro tranquilo de classe baixa, viu em semanas...
Desde o dia 13 de setembro de 19887, as ruas do Setor Aeroporto de Goiânia nunca mais foram as mesmas. O local que antes era um bairro tranquilo de classe baixa, viu em semanas casas sendo demolidas e seus itens virarem lixo radioativo.
A história começa em 1985, quando o antigo Instituto Goiano de Radioterapia fechou e deixou, no prédio abandonado uma máquina de radiologia com uma cápsula contendo sal de césio 137. Passavam pelo local todos os dias, Roberto dos Santos Alves e Wagner Mota Pereira, catadores de materiais recicláveis, que buscavam por alumínio e chumbo. Ao perceberem a cápsula decidiram levar para casa e tentar vendê-lá a um ferro velho.
O comprador do material era Devair Alves Ferreira, que junto de seus funcionários romperam a cápsula de chumbo e expuseram o sal de césio 137. A luz azul emitida pelo composto chamou a atenção das pessoas, que sem saber do risco, manipularam por diversas áreas o componente. Inclusive, diversos vizinhos foram até o ferro-velho para ver o famoso pó azul que brilhava no escuro.
O irmão de Devair, Ivo Ferreira, levou um pouco do pó para mostrar à família. Sua filha, Leide das Neves, ficou maravilhada com o brilho azul e acabou ingerindo um pouco do produto sem perceber. Ela foi a primeira vítima fatal do acidente e se tornou símbolo na luta por justiça dos radioacidentados.
A essa altura, muitas pessoas já estavam apresentando sintomas de contaminação e os órgão públicos suspeitavam de viroses e até mesmo de vazamento de gás.
Sintomas de contaminação por radiação
Rápidos como náuseas, vômitos, diarreia, fraqueza, queda de cabelo e queimaduras na pele. Nos casos de exposições prolongadas mesmo com menos índice, aumenta cumulativamente o risco de danos à medula óssea, mutações genéticas e câncer.
Depois de ver diversos amigos, familiares e vizinhos adoecerem, Maria Gabriela Ferreira, esposa de Devair, suspeitou que o pós poderia ser a causa do mal-estar. Ela decidiu colocar a cápsula em um saco e levá-la até a vigilância sanitária da cidade. O trajeto foi percorrido ônibus de transporte público. No prédio da vigilância, o material ficou em uma cadeira por alguns dias, até que o físico Walter Mendes Ferreira fosse chamado para identificar o conteúdo.
Os níveis de radiação do local eram extremamente altos. Inicialmente, o físico pensou que o equipamento, um aparelho de medição de radiação ionizante, estivesse com defeito. Por isso, pediu para outro equipamento, para confirmar a leitura e constatou que a situação era extrema. A identificação da substância e o início dos procedimentos ocorreram apenas no dia 29 de setembro, 21 dias após a abertura da cápsula.
O acidente foi oficialmente reconhecido e notificado à Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cnen), que depois comunicou o caso à Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA). O acidente do césio 137 em Goiânia, é considerado o maior acidente radioativo em área urbana e fora de usinas nucleares do mundo.
Foram mais de 100 mil pessoas afetadas imediatamente pela radiação. Foi necessário um extenso trabalho de isolamento dos contaminados e mobilização para fazer a limpeza do lixo radioativo.
A Associação das Vítimas do Césio 137, afirma que 104 pessoas morreram até 2012 em decorrência da contaminação radioativa e que cerca de 1,6 mil pessoas foram diretamente afetadas.
Os radioacidentados foram levados para o Estádio Olímpico Pedro Ludovíco Teixeira, onde tomaram banhos prolongados e de alta pressão, trocavam de roupas várias vezes ao dia e tomavam azul da Prússia, medicamento utilizado na descontaminação.
Roupas, calçados, paredes, móveis: tudo que esteve em contato com o pó azul se tornou lixo. Ao todo foram cerca de 6 mil toneladas de material radioativo. Atualmente este material se encontra em um aterro, especialmente criado após o acidente em Abadia de Goiás.
O que é o Césio 137
O césio-137 é um elemento radioativo utilizado principalmente em aparelhos de radioterapia e equipamentos industriais. Ele emite radiação beta e gama, sendo a radiação gama a mais perigosa por conseguir atravessar o corpo humano e diferentes materiais.
Quando entra em contato com o organismo, o césio-137 danifica células e tecidos. A contaminação pode ocorrer por contato direto, inalação ou ingestão. Sua meia-vida é de cerca de 30 anos, ou seja, esse é o tempo necessário para que metade de sua radioatividade desapareça naturalmente.
Vítimas imediatas
Leide das Neves Ferreira Com apenas 6 anos, foi a vítima que recebeu a maior dose de radiação no acidente. Ela apresentou sintomas graves, como queda de cabelo, inchaço pelo corpo, hemorragias e falência de órgãos. Morreu em outubro de 1987, vítima de uma infecção generalizada causada pelos efeitos da radiação. Seu enterro gerou medo e revolta em Goiânia, já que muitas pessoas acreditavam que o corpo ainda poderia contaminar a região. Seu caixão revestido por chumbo pesava mais 700 kg e precisou ser levado por guindaste para o enterro.
Maria Gabriela Ferreira Esposa do dono do ferro-velho onde a cápsula radioativa foi aberta, começou a passar mal poucos dias após o contato com o Césio-137. Ela sofreu hemorragias internas, principalmente nos olhos e no sistema digestivo, além de queda de cabelo. Morreu cerca de um mês depois da exposição à radiação.
Israel Baptista dos Santos Funcionário do ferro-velho, participou da manipulação da cápsula radioativa para retirar partes metálicas do aparelho. A exposição causou graves problemas respiratórios e complicações no sistema linfático. Ele morreu poucos dias após ser internado.
Admilson Alves de Souza Também funcionário do ferro-velho, teve contato direto com o material radioativo e desenvolveu lesões pulmonares, hemorragias internas e problemas cardíacos. Assim como outras vítimas do acidente, morreu em decorrência das complicações causadas pela radiação pouco tempo após o acidente.
O acidente poderia ter sido evitado?
O acidente com o Césio-137 revelou uma série de falhas e negligências. O Instituto Goiano de Radioterapia (IGR), responsável pelo aparelho que continha o material radioativo, não comunicou às autoridades a mudança de endereço da clínica nem o abandono do equipamento no antigo prédio.
Durante uma disputa judicial pelo imóvel, partes da estrutura foram retiradas, deixando o local aberto e sem controle de acesso.
As investigações apontaram que os responsáveis pelo instituto e o físico responsável tinham conhecimento dos riscos do Césio-137 e das normas de segurança exigidas para o descarte seguro e correto do material. Mesmo assim, o equipamento permaneceu abandonado.
Em 1992, parte dos envolvidos foi condenada por homicídio culposo e lesão corporal culposa devido às mortes e aos danos causados pelo acidente. As penas foram convertidas em restrições de direitos, sem prisão em regime fechado.
Na prática, ninguém realmente pagou pelo crime. Afinal, em 1996, todos os condenados receberam indulto presidencial.
As vítimas hoje em dia
Desde o acidente as vítimas buscam por algum tipo de justiça e suporte do Estado. Muitos radioacidentados precisam conviver com doenças relacionadas à radiação como câncer, alterações metabólicas, amputações entre muitas outras doenças.
Na prática, as famílias ainda lutam para receber suporte financeiro e atendimento médico adequado. Para auxiliar as vítimas e realizar estudos sobre os impactos da radiação, atualmente existe o Centro de Atenção aos Radioacidentados.
Após o acidente com o Césio-137, foi criada a Lei 9.425/96, que garantiu pensão vitalícia para as vítimas da contaminação, com critérios que variam conforme os danos causados pela radiação. Além disso, Goiânia criou o Dia Maria Gabriela Ferreira, em homenagem à mulher que ajudou as autoridades a identificar a tragédia.
Mesmo com essas medidas, ainda há um apagamento de parte da história, inclusive os locais do antigo ferro-velho e o túmulo das quatro vítimas,, por exemplo, não contém nenhum tipo de sinalização ou homenagens.
Muitas vítimas também tiveram que lidar com o preconceito após o acidente. Existem relatos de pessoas que, ao dizerem que eram de Goiânia, percebiam o afastamento dos outros por medo de ainda emitirem radiação de alguma forma.
Alimentos e produtos da região também sofreram queda nas vendas na época. Grande parte da população não tinha conhecimento suficiente para entender o que realmente era a radiação, quais eram seus impactos e que a contaminação estava concentrada em áreas específicas. Além disso, existia uma forte desconfiança em relação às instituições e às informações divulgadas pelas autoridades.
A série Emergência Radioativa
O caso do césio 137 voltou a ser comentado na mídia, após o lançamento da série Emergência Radioativa da Netflix. A obra retrata toda a cronologia do acidente tendo como protagonista o ator Johnny Massaro, interpretando Márcio. O personagem corresponde, na vida real, ao físico Walter Mendes Ferreira, que foi o responsável por identificar a radiação e alertar as autoridades sobre o acidente.
Outra personagem marcante é Celeste, interpretada por Marina da Silva, e inspirada em Leide das Neves – a primeira vítima do césio 137. Já vista como heroína,por muitos, Maria Gabriela Ferreira, foi interpretada por Ana Costa e ganhou o nome de Antônia na série.
Apesar da série ser muito realista com a cronologia do acidente, ela não retrata as consequências a longo prazo da radiação e o estigma social que os radioacidentados e a comunidade tiveram que encarar ao longo dos anos. Também ficam de fora muitos dos prejuízos financeiro e problemas de saúde enfrentados pelas famílias com pouco apoio do Estado e nenhuma consequência aos responsáveis.
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