Análise da Redação Enem 2018: Manipulação do usuário pelo controle de dados na internet

Logo  após o inicio das provas do Enem do primeiro domingo (4 de novembro) o INEP (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas) divulgou o tema da Redação Enem 2018 apresentado aos candidatos: Manipulação do usuário pelo controle de dados na internet.

O diretor do Blog do Enem, professor João Vianney, avaliou que não será difícil para os candidatos elaborar o texto dissertativo-argumentativo para este Tema da Redação do Enem 2018 porque é um assunto corrente, muito comentado na mídia nos últimos anos.

Para Vianney, que é psicólogo, o tema apresenta controvérsias que os candidatos podem explorar para estabelecer o Ponto de Vista (a Tese), os Argumentos, e chegar à uma Proposta de Intervenção. Há pesquisas científicas desde a década de 1960 mostrando que os meios de comunicação de massa não conseguem estabelecer uma hegemonia por sobre o pensamento da sociedade em regime democrático.

Mesmo com tentativas já registradas de manipulação dos usuários os resultados não confirmaram as teorias hipodérmicas, de que bastaria uma indução intensiva do tipo ‘coma pipoca’ nas telas do cinema para que tal comportamento ocorresse. Este experimento, inclusive, deve ser uma citação corrente, pois está na base do Tema da Redação Enem 2018, porém com ênfase para 60 anos atrás.

Agora, nos tempos da Internet e das Redes Sociais emerge um outro fenômeno que é o da formação de grupos ou tribos por afinidade identitária ou ideológica, e que passam a se realimentar de mensagens que reforçam suas convicções e que detratam as pessoas (ou ideias e comportamentos) que não estão vinculadas a este grupo original.

Ou seja, para Vianney, uma fakenews tem efeito limitado ao grupo de afinidade ao propósito que ela defende ou ataca, e não tem o poder de influenciar a sociedade em caráter prolongado quando em regime de liberdade de expressão e de múltiplos canais existentes.

Bigdatas no tema da Redação do Enem 2018

Por outro lado, o crescimento dos sistemas de Bigdata, em que o comportamento dos usuários na internet fica registrando em bancos de dados com suporte de processamento e análise por inteligência artificial tornam mais restrita a liberdade do indivíduo em relação à sua própria vida, pois a privacidade vai desaparecendo a partir do momento que os registros do que se faz, do que se fala, do que se escreve, para onde se vai e até mesmo o que se come ficam nas mãos de terceiros.

Censura x Liberdade – Este fator  contemporâneo dos Bigdatas pode levar a que muitos candidatos apresentem propostas de intervenção que se aproximem de diferentes níveis de censura ou de controle da mídia ou das Redes Sociais. No Brasil, nas últimas duas décadas, por muitas vezes foram apresentadas propostas de ‘Controle Social da Mídia’ com argumentos de ‘proteger a sociedade’.

Porém, ao longo da história, tais iniciativas redundaram sempre em mecanismos de censura, e não de proteção à liberdade de informação. No cerne deste debate, para Vianney, está a discussão se os indivíduos e a sociedade têm ou não a capacidade de discernir e de arbitrar o próprio comportamento em relação às informações, ou se precisam ser tutelados por um grupo de especialistas ou censores. Esta é questão central.

tema da redação do Enem 2018

O Facebook é o depositário quase universal das conversas entre as pessoas na Internet, pois além do próprio Face eles têm os registros do Instagram e, em tese, até mesmo do Whatsapp, apesar da empresa jurar e garantir que não preserva as conversas realizadas no Whats.

Manipulação com fins eleitorais nos EUA

As eleições presidenciais nos Estados Unidos, quando foi eleito Donald Trump entraram para a história trazendo à tona um escândalo pelo uso de dados de comportamento de eleitores norteamericanos através dos registros no Facebook, quando uma empresa inglesa trabalhou para a candidatura de Trump criando mensagens especiais de acordo com o perfil dos usuários.

Em seguida à eleição de Trump ele passou a desafiar a imprensa tradicional com acusações de fakenews de maneira intensiva inclusive para veículos tradicionais como o jornal The New Yourk Times.

As Fakenews no Brasil

No Brasil, na recente eleição presidencial o tema de manipulação de dados para influenciar usuários na Internet entrou em cena inicialmente em Minas Gerais, quando uma empresa que trabalhava para candidatos do Partido dos Trabalhadores criou um sistema de remuneração para usuários que replicassem mensagens favorecendo candidatos vinculados a este partido e coligados.

No segundo turno da eleição presidencial o jornal Folha de São Paulo apresentou denúncia contra a candidatura de Jair Bolsonaro, indicando que simpatizantes desta candidatura teriam patrocinado disparos em massa no Whatsapp com mensagens favoráveis ao candidato e/ou contrárias ao candidato oponente, Fernando Haddad.

O Tribunal Superior Eleitoral determinou à Polícia Federal investigação abrangendo as duas candidaturas presidenciais para descobrir se e como elas se utilizaram de estratégias que pudessem indicar a tentativa de manipulação de dados (ou informações) com fins de influenciar os usuários (ou eleitores).